Histórias que atravessam marés

Por em 25 de dezembro de 2012

O sol caia sobre o horizonte em um dos dias mais lindos do verão e com ele às lágrimas de Miguel. Ele perdeu o amor de sua vida e tudo que um dia foi certeza virou inexatidão. Alice também o amou desde o dia em que se conheceram ainda crianças. Juntos projetaram sonhos, compartilharam segredos ao luar; a mera presença de um para o outro era a expressão completa de felicidade, uma sintonia tão perfeita que fez o pai dela tomar uma atitude drástica. Ao ver que o romance estava ficando mais sério e faltava pouco para Alice completar 18 anos, a levou para estudar longe, em um lugar onde não conseguisse ter contato com aquele rapaz honrado, mas, que por conseqüências da vida era pobre e para ele o segundo fator era diferencial. Ela foi embora chorando e levou consigo a lembrança e as primeiras linhas do verso que criaram para eles. Era parte de seu código, parte da lembrança boa que gostaria de carregar ao longo dos anos. Pouco tempo depois ele mudou de cidade para recomeçar a vida e tentar esquecê-la, mas, antes, antes que pudesse entregar seu coração às areias do tempo, escreveu o que seria uma carta de amor para ela, colocou em uma garrafa e lançou ao mar. Colocou seu coração no papel e torceu para que um dia quem sabe ela achasse ou algum amor pudesse ser inspirado no seu.  A carta dizia o seguinte:

Meu coração bateu por ti, forte, desde o primeiro olhar e junto a ti vi se apagar  o muro de preconceitos que separavam nossos mundos já então distantes.Te amei da forma mais pura, com todo o sentimento de uma criança que começa a conhecer a vida. Foi correndo de bicicleta  ao seu lado que entendi o que era liberdade, te abraçando repousei na segurança, te beijando entendi o amor, te amando me transformei em um homem. Tudo que já foi completo hoje sofre a pressão de um turbilhão de vento correndo por espaços vazios; imagens que consomem o pensamento e me levam as lágrimas. Talvez nunca mais te encontre e o tempo faça com que reconstrua a minha vida, talvez o mais próximo que esteja de ti seja na lembrança, mas, uma coisa quero que saibas, que o nosso verso guardarei para sempre para lembrar da pessoa que mais amei em toda a minha vida. Por 20 anos a garrafa ficou perdida no mar  e em uma tarde de verão acabou por cair nas mãos de Kate, uma romancista parisiense que passava férias no Brasil. A história era perfeita para completar um romance que estava a escrever. De Alice nada mais se soube e Miguel acabou se tornando um amargo e poderoso homem do setor industrial, sempre mais razão que impulso, mais determinação que coração. Por capricho do destino, teria um encontro de negócios em Paris e para atender o pedido de sua secretária iria na noite de autógrafos do livro: Histórias que atravessam marés. Ao cumprir seu cronograma passou para ver o lançamento do livro e subitamente chorou ao ver Kate ler as linhas da epígrafe:

Que em meu corpo encontre abrigo

Que em meu coração faça morada

Que em meus olhos veja a luz do caminho

E de paz seja nossa estrada.

Na seqüência fecha os olhos e fala:

Porque te amo como a luz da manhã

E  por este amor me entrego

Por que se espelha na minha alma

E independente da distância te amarei pelo resto de minha vida.

Ao ouvir Miguel completar o verso Kate entrou em choque e perguntou como ele sabia o fim do texto e ele contou que aquele era um poema secreto que ele fez com a pessoa que mais amou em toda a sua vida. Kate ao ouvir ele falar chorou e pediu uns minutos de sua atenção. Ele estava abalado e pediu que fosse breve pois a lembrança com algo do passado mexia com ele. Ela lhe disse que as quatro primeiras linhas eram uma lembrança que a mãe dela carregava consigo desde que havia perdido o seu grande amor anos atrás e com a permissão dela, um pouco antes de falecer naquela cama de hospital ,me autorizou a escrever o livro com a história dela e deste amor que se completou quando estive no Brasil e encontrei uma carta de amor dentro de uma garrafa. Eu tenho fotos antigas dela e deste amor da vida dela, o pai que não conheci. Curioso olhou as fotos e novamente chorou ao constatar que era ele e que o destino lhe devolvia uma filha de presente. A gente escolhe o caminho, mas, existe coisas que já estão escritas.

Dam Nascimento

Dam Nascimento - Graduado em Comunicação Social com Ênfase em Publicidade e Propaganda, tem três publicações em anuários de iniciação científica, um livro e duas participações em antologias literárias; atua na área de representação e treinamentos.          site: www.freewebs.com/cronistadam