Sórdida Inocência

Por em 2 de janeiro de 2013

O dia já havia amanhecido era a hora de cumprir o trato. Antônio deu a mão de sua filha mais nova a Hernandes, um poderoso empresário, em troca do perdão de uma velha dívida de família. Emily era um doce de garota, amabilíssima, tinha o corpo tentador do florescer da adolescência sob uma pele clara e macia como a de um bebe.

Ela não concordava com o acordo, como poderia morar com um homem que mal conhecia e que tinha idade para ser seu avô; contudo, não tinha alternativa e subiu ao altar no dia mais infeliz de sua vida.Para piorar, o homem queria ter certeza de que não perderia nada e se casou com separação total de bens. A família de Hernandes era pequena, ele tinha dois filhos, uma irmã e um sobrinho apenas.Eram todos nobres, educados no exterior, envoltos em um universo de cultura e domínio. Seus dois maiores defeitos eram a arrogância e o péssimo hábito de colocar os dedos na língua enquanto liam seus livros.

Emily não chegava a ser parte da família era como um objeto de estimação que estaria à disposição quando a solicitassem. Era um brinquedo de luxo de 17 anos. O seu lugar de descanso era o solário que havia no jardim, o único lugar onde ninguém a perturbava. Uma vez Hernandes a pegou arrumando seus documentos na biblioteca e quase a atirou pela janela e em outras ocasiões, seus filhos e sobrinho a tratavam como uma empregadinha de quinta categoria. Os dias naquela luxuosa mansão pareciam uma forma nobre de cárcere. No solário que tanta gostava, às vezes delicadas lágrimas corriam por seu rosto suave, borrando a maquiagem que realçava seus olhos verdes. Ela tentava entender o que levou seu pai a uma atitude tão drástica e mesmo com o peso deste fato, fazia esforço para perdoá-lo.

Sentia saudade de casa e de sua família, mas, não era autorizada a vê-los, limitando-se apenas a rezar por todos na capela da propriedade. Seu corpo enlouquecia todos os homens daquele local, os fazia derreter em desejo, mas, ela era uma moça séria e não alimentava a esperança de nenhum deles. Apesar das condições entendia que era casada e que não seria certo. Na mudança de estação daquele ano, uma onda do destino começou a marcar a família. Era uma sexta, estavam no começo do inverno quando o sobrinho de Hernandes morreu. Ele sentiu uma tontura perto de uma das escadas, rolou e quebrou o pescoço.

Os médicos indicaram que a causa foi natural, era um começo de uma parada cardíaca. Todos ficaram chocados com o fato e talvez até pelo choque, dias depois sua mãe morreu. A família de Hernandes estava reduzida a ele e seus dois filhos, o que o deixava muito triste. Apesar de tudo Emily chorou , era sensível a morte, mesmo que aquelas pessoas a maltratassem. Ela cuidou do marido e de seus filhos com carinho apesar dos maus tratos. Os meses se passaram e  no começo do ano, uma nova perda. Desta vez foi seu filho que teve uma parada cardíaca enquanto dirigia e acabou colidindo com outros veículos.

Com a perda Hernandes entrou em depressão e se afastou dos negócios por um tempo. Emily levava comida para ele na cama e tentava apoiá-lo em sua irreparável perda; junto com a filha que já estava bem mais maleável, começou a entender dos  negócios da família e ajudou a organizá-los. Dois anos se passaram e eles começavam a parecer uma família feliz quando o destino levou de Hernandes sua filha. Ela morreu da mesma forma que os outros. Era uma família cárdiopata. Sem descendentes , Hernandes não queria que seu patrimônio fosse para  o governo e incluiu sua jovem esposa como única herdeira. Apesar de todos os atritos, ele via em seus olhos que começava a existir amor e pediu perdão. Ela docemente aceitou as desculpas e disse que o destino escreve as linhas da vida e da morte. Passou-se mais um ano e ele faleceu.

Emily estava só, milionária, sabia administrar os negócios e poderia continuar sua vida. Enquanto velava o corpo, sua mente fazia um balanço de sua trajetória nos últimos anos e uma lágrima caiu ao lembrar dos abusos; da forma violenta como Hernandes a possuiu tantas vezes, das humilhações a que fora submetida, de como foi mais objeto que mulher e se retirou do local resignada como sempre. Na mansão sozinha em seu solário, depois de momentos de absoluto silêncio abraçada com um livro intitulado: Destino, uma risada sórdida e ela fala para si mesma: _ Eles só não leram o livro que mais me inspirava : Em nome da rosa, onde todas as páginas continham veneno.

Dam Nascimento

Dam Nascimento - Graduado em Comunicação Social com Ênfase em Publicidade e Propaganda, tem três publicações em anuários de iniciação científica, um livro e duas participações em antologias literárias; atua na área de representação e treinamentos.          site: www.freewebs.com/cronistadam