A trajetória de um José

Por em 26 de janeiro de 2013

Era uma tarde de outono quando José nasceu; ele era o quinto filho da família Moura. Sua chegada trouxe grande alegria, em especial ao seu pai, que não se continha em lágrimas no reservado.

A vida de seu João não era fácil e se tornaria mais complicada com a chegada de uma nova criança, porém, ele nunca reclamou. A determinação daquele homem impressionava e mesmo com poucas palavras, criou seus filhos e lhes guiou pelos princípios que acreditava.

Foi um bom homem, um bom marido, um bom pai. José tinha muito dele e conseguia perceber que viver era por etapas, não um plano futuro de final certo. Sua ligação com o pai era muito estreita e ele sabia o quanto era importante, apesar de nunca ter ouvido um: Eu te amo. Com o tempo os filhos casaram e foram se afastando para construir suas próprias famílias.

O contato com os pais eram em datas comemorativas quando as programações batiam. Seu João e Dona Ana entediam que fazia parte da vida, mas, se sentiam sós; não só pela idade avançada que já tinham, mas, pela triste aparência de casa vazia. Por vezes, José tentou convencê-los a sair dali e ir morar com ele; mas, eles alegavam que a história da vida deles era daquele lugar e ali deveriam ficar.

No ponto mais alto de sua razão José disse: _ Vou voltar pra cá_ e viu o brilho no olhar dos pais que quase não acreditaram no que ouviram. Ele tinha uma profissão flexível, então veio com a esposa e se instalou na propriedade ao lado, onde ainda daria uma grande alegria a eles.

Com pouco tempo nasceram os dois filhos de José, André e Lucas, e seu pai por mais uma vez chorou, um choro silencioso de uma dupla realização. José se emocionava tanto quanto o pai, mas, suas expressões eram afloradas, ele era um apaixonado que não tinha a menor pretensão de esconder.

Estava feliz por seus filhos poderem conhecer as pessoas que mais amou durante sua vida. O tempo levou sua mãe e deixou seu pai frágil e debilitado. A idade lhe trouxe Alzeihmer e Seu João não conseguia mais reconhecer o seu querido filho.

Para ele, era um moço querido de quem gostava muito, mas, não lembrava o parentesco.

José ficou com seu pai, lado a lado, até o último dia. Seu João morreu tranquilo nos braços do filho que mexia em seus cabelos lentamente. O destino tirou de José o prazer da despedida, mas estava ali, mesmo que fosse então um estranho, com o coração em mil pedaços. Sem razão para continuar na propriedade, voltou para a cidade e como um bom pai, acompanhou o crescimento de seus filhos. Lucas era totalmente ligado à família, André era aventureiro e ambicioso. Apesar de gostar mais do estilo de Lucas, deu a mesma parcela de atenção aos dois.

Os meninos cresceram e os ideais de André o transformaram em um empresário mercenário que não se preocupava com nada, a não ser seus próprios bens. José via que André nunca entendeu os seus valores, mas, nunca o desamparou. Lucas era totalmente o contrário e levava os pais para todos os lugares que podia.

Ele se tornou um músico conceituado apesar da pouca idade, mas não era ligado a nada material. José se orgulhava dele e mal sabia a surpresa que seu filho o reservava. Lucas chegou em casa mais cedo e o surpreendeu; havia composto uma canção para o pai e ali mesmo , empolgado cantou. José chorou copiosamente, como uma criança, emocionado, sem palavras e Lucas com o coração na mão encerrou a canção com: Eu te amo.

O destino mais uma vez testou José; o dia amanheceu e ele empolgado acordou a esposa e foi acordar o filho para mostrar a canção, mas, ele não se mexeu, nem sequer piscou. Estava frio, tranquilo, sem vida. O coração dele parou durante o sono e José tomou seu menino nos braços pela última vez e agradeceu a Deus por estar ali, por tudo que Lucas foi. Um tempo se passou e a esposa de José continuava muito triste e mais uma vez o destino o testou. Ele andava por uma rua perto de casa em um dia de temporal quando encontrou alguém tremendo de frio. Era Bruno, um menino abandonado de quatro anos. Ele pediu algo para comer e uma roupa velha seca. José sentiu que deveria oferecer mais. Pelas portas da adoção Bruno entrou naquela família e devolveu a todos a alegria de viver.

O garoto era esperto, carinhoso e extremamente dedicado. Sempre que possível André o desprezava e dizia que ele não passava de uma tragédia da sociedade. Vinte cinco anos se passaram e agora Bruno também era um homem e José um velhinho. Bruno era médico, um profissional dedicado que valorizava e priorizava a vida acima de tudo e, além disso, cuidava dos pais, coisa que o irmão André não fazia a muito.

José agradecia a Deus pela família que tinha e mais uma vez o destino o testou. André sofreu um sério acidente de carro em um engavetamento e acabou entre a vida e a morte; nas mãos do irmão que tanto odiava. Bruno nunca guardou rancor e lutou por ele até o último momento e o trouxe de volta.

André o tratou mal e disse não entender porque o irmão o salvou. Bruno apenas sorriu. Mais uma vez o destino testou José. Em uma noite, um anjo veio e lhe estendeu a mão e ele sorrindo disse: Estarei pronto no dia que estiver determinado; entendi que o amor transcende, que tem que ser dia a dia, que não precisa ser em palavras, que nunca saberemos o momento final. Tomei nos braços e perdi através do amor, meu pai e meu filho. Ganhei da vida uma nova possibilidade, uma nova alegria para minha vida e presenciei o ato mais de um ser humano: o perdão.

Me sinto completo para estar aqui ou para seguir viagem e vou continuar chorando, desta vez , mais uma vez, de alegria.

Esta é a história de um José, que poderia ser qualquer um de nós e que entendeu que dessa vida, só devemos levar bons momentos e saudades.

Ser feliz é uma questão de acreditar.

 

Dam Nascimento

Dam Nascimento - Graduado em Comunicação Social com Ênfase em Publicidade e Propaganda, tem três publicações em anuários de iniciação científica, um livro e duas participações em antologias literárias; atua na área de representação e treinamentos.          site: www.freewebs.com/cronistadam