Janela do presídio de Guantánamo

Por em 26 de maio de 2013

Desenhemos uma cena atual de barbárie: um grupo de patriotas, por defender seus países (e consequentemente seus povos, suas culturas, seus modos de vida, seus bens patrimoniais, etc.) contra a invasão estrangeira, é agredido, agrilhoado e transferido a um presídio localizado numa ilha caribenha, que está bem longe de seus países de origem. Algo não muito diferente passou-se séculos atrás com os africanos que sofriam de banzo (saudade da terra natal), desnutrição e humilhações enquanto eram desterrados em direção ao solo americano para o trabalho escravo.

A maioria dos 166 detentos atuais do presídio de Guantánamo são de origem afegã e paquistanesa. Foram aprisionados na missão bélica invasora, ilegítima e unilateral dos Estados Unidos no Oriente Médio por suspeita de ligação com a organização Al Qaeda. Desde que chegaram a Guantánamo, não se lhes tem dado nenhuma garantia de quanto tempo permanecerão encarcerados e em que situação.

Em meados de maio de 2013, 100 destes 166 presidiários cumpriram 100 dias fazendo greve de fome em protesto aos abusos, maus-tratos, condições insalubres das instalações, roubo de seus pertences por carcereiros e atos de desprezo do Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos) por soldados EUAnos.

O presídio de Guantánamo (Guantanamo Bay Detention Camp, que contém os espaços Camp Delta, Camp Iguana e Camp X-Ray de tortura a asiáticos) construiu-se numa base militar dos Estados Unidos no sudeste de Cuba. Projetou-se como um espaço de detenção temporária, embora tenha tomado outro rumo. Lá foram levados, noutros períodos históricos, detentos de origem japonesa e vietnamita, quase todos após guerras (respectivamente II Guerra “Mundial” e Guerra do Vietnã).

O governo da ilha ofende-se pela presença militar EUAna em seu quintal, cuja porção territorial de 116 quilômetros quadrados foi tomada pelos Estados Unidos em 1903 – em acordo com o governo cubano daquela época – para fins de exploração mineira e naval. A posse EUAna da Baía de Guantánamo é uma herança pré-Revolução Cubana que levou à patrulha ostensiva da área a partir de início da década de 1960 e à proibição de soldados EUAnos de cruzar o limite com Cuba.

Algo sério está passando na Baía de Guantánamo e a greve de fome dos encarcerados tenta despertar atenção mundial sobre o tema. Nas vizinhanças de praias caribenhas paradisíacas, ecoa o martírio de 166 enjaulados por um país em desacordo com normas internacionais. Estão lá sem terem sido competentemente julgados e sentenciados por uma corte legítima. Há um desequilíbrio de forças nas relações internacionais que mantém a impunidade dos atos unilaterais e silencia os mais fracos.

América Latina é uma região de contrastes. A Marinha EUAna intensificou a patrulha da costa da Flórida, aonde milhares de cubanos chegavam em embarcações precárias e superlotadas para tentar a vida nos Estados Unidos. Poucos obtinham êxito. A distância das águas entre Flórida e Cuba, para eles, era menor que a dos desertos escaldantes na fronteira entre Estados Unidos e México.

Instituições que se inspiram no modelo de direitos humanos do Velho Continente, da Organização das Nações Unidas e da União de Nações Sul-Americanas são as que mais pressionam a favor do fechamento do presídio de Guantánamo. Elas reivindicam que somente a transferência dos detentos a outro presídio não é garantia de resolução dos problemas que instituições como a Cruz Vermelha Internacional reconheceram. Algumas delas tiraram suas conclusões após visita de seus profissionais e técnicos a Guantánamo.

Embora uma das promessas da primeira campanha do presidente EUAno Barack Obama tenha sido o fechamento do presídio de Guantánamo, o espaço continua funcionando normalmente. Uma medida paliativa que muitos esperavam era pelo menos a transferência dos detentos a outros cárceres, mas isto tampouco ocorreu. A entrada dos presidiários de Guantánamo ao território estadunidense poderá prescindir de visto, mas eles continuarão espiando o mundo por uma janela que é pior que a maior parte dos programas da televisão sempre que esta é vista como janela para o mundo.

Bruno Peron Loureiro

Bruno Peron Loureiro - Bacharel em Relações Internacionais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), escreve artigos sobre Brasil e América Latina.                                                    E-mail: brunopl@terra.com.br