Tempo de festa junina

Por em 3 de junho de 2013

Mês de junho, recheado de festas dos santos era motivo de alegria para a garotada e para as famílias da rua de casa. Por termos um quintal muito grande onde até chegávamos a jogar bola, envolvendo dez a doze crianças, era ali que acontecia a festa junina das famílias vizinhas. E o local era realmente especial: por termos fogão à lenha, meu pai era responsável por separar alguns galhos e muitas folhas de árvore, tocos de madeira e juntar tudo, de tal maneira que a fogueira acabava virando atração na redondeza.

Amigos de Ademir, meu irmão mais velho, alguns colegas da Cruzada Eucarística – formada por meninos e meninas de 8 a 14 anos e que frequentavam a missa das crianças na igreja da Vila Arens – entre as décadas de 1950 e 1960 e os vizinhos, que eram amigos de meu pai e minha mãe e os filhos que muitas vezes jogavam futebol, principalmente nas conhecidas partidas de “Rua de baixo contra rua de cima”. Além da fogueira armada no quintal, minha mãe era a responsável para fazer o quentão. Pinga, comprada no armazém do seu Valentim, gengibre que tinha sido plantado por meu pai, limão também do nosso quintal e água, muita, água para a criançada não ficar embriagada. Havia, ainda, refrigerante ou Q-suco de morango, pipoca, batata doce, bolo de milho, canjica, amendoim torrado e pé de moleque. Como não tínhamos aparelhos de som, o jeito era cantar as músicas tradicionais, um ajudando o outro.

E começávamos com a tradicional “Coma filha de João, Antonio ia se casar…”, depois alguém se lembrava de “Eu pedi numa oração, ao querido São João que me desse um matrimônio. São João disse que não! São João disse que não! Isso é lá com Santo Antonio…” E vinha ainda “Pula a fogueira Iaiá. Pula a fogueira ioiô!” E a noite avançava… Quadrilha a gente não dançava, preferia ir ao “Dragão Mecânica” onde o fato acontecia sempre na noite de São João. O gostoso era que, depois de acender a fogueira, a batata doce era colocada ali para ser assada. E tinha sempre alguém tomando conta da batata. E quando estava pronta, era retirada com cuidado, a casca praticamente se soltava e comíamos a batata quentinha. Como era também do quintal, tinha batata doce para todo mundo…

Mas se tinha algo que a gente não conseguia fazer era atravessar a fogueira, pisando nas brasas… Isso nenhuma criança tinha coragem de fazer e os adultos “davam o exemplo” sem praticar este ato. Mas pular a fogueira ahhhhh… isso a gente fazia e fazia com gosto. Vinha correndo e saltava por cima, procurando principalmente onde ainda tinha fogo. E isso tudo, claro, sob os olhares atentos dos pais da criança corajosa… E como nem tudo que é bom dura prá sempre… estas grandes festas juninas sobrevivem em nossas memórias, provocando risos e lágrimas ao mesmo tempo, já que a emoção é sempre forte neste momento.

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/