Paralaxe de cidadãos

Por em 7 de julho de 2013

Boa parte das demandas que irromperam dos protestos de junho de 2013 no Brasil sugere um reforço dos compromissos do Estado com os brasileiros. Porém, o cuidado que se deve ter diz respeito a como entendemos quais são as responsabilidades do Estado como garantidor do interesse público enquanto as nossas são como cidadãos independentes. Noutras palavras, devemos cobrar menos dos outros e agir mais para conquistar o país que queremos.

A máfia do papel prevalece sobre a saciação das necessidades sociais no país. Exemplo disto é a reação xenófoba de médicos brasileiros à contratação de médicos estrangeiros para trabalhar em regiões carentes, pobres e remotas. Exigem a revalidação de seus diplomas e discriminam-nos por ser de pior qualidade. Pouco lhes interessa revelar que médicos brasileiros nem sempre se disponham a trabalhar em regiões longínquas, ou que muitos destes médicos sejam cubanos (onde sua medicina é das mais desenvolvidas no mundo).

Outra situação é quando caminhoneiros interditaram 92 trechos de rodovias em vários estados brasileiros nos primeiros dias de julho de 2013. Suas demandas principais têm relação com a diminuição dos custos de transporte (combustível, pedágio) e melhoria dos seus direitos trabalhistas. O modelo de concessões de rodovias públicas a empresas privadas e a variação de preços de combustíveis em função do mercado exigem um debate com a sociedade.

Embora o Estado se entenda mal como provedor de todos os serviços (nem sempre coletivos), ele deve orientar sua burocracia ao dever de garantir o interesse público. Este conceito último precisa de esclarecimentos, uma vez que o Estado não é o único agente que o promove. Há associações comunitárias, empresas privadas, movimentos sociais, organizações sem finalidade lucrativa, entre outros, que direcionam suas atividades à promoção das coletividades.

Temos uma ideia preconcebida de que o Estado deve prover-nos quase tudo (tarifa zero, salários mais altos, benefícios) enquanto contraditoriamente queremos que baixe os impostos (como o painel Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo sugere). Para seguir este modelo de Estado, não haveria outra maneira de tirar dinheiro que da cartola de um mágico ou das meias de um político corrupto. Precisamos, ao contrário, ativar nossa cidadania a fim de cumprir bem o papel que nos cabe a cada um; deste modo, pensaremos menos no interesse próprio e mais no interesse coletivo.

Os movimentos de protesto que emergiram no Brasil em junho de 2013 têm a característica de sustentar causas e insatisfações múltiplas, mas se direcionam amiúde contra inimigos não-identificados. Ora os protestos se dirigem a políticos corruptos (bradando “Fora Renan”) e à ineficiência do Estado (propondo “reforma política”, “mais saúde e mais educação”), ora à exploração de empresas privadas (pedágios abusivos, preço alto de combustível).

O que notei neles é que há uma tendência de as massas seguirem apologias enérgicas e acusações infundadas, como o mal-entendido projeto de lei que se alcunhou “cura gay”. Por culpa nossa, as bolinhas de sabão de nossa meia-cidadania sopram-se por meios de comunicação hegemônicos e oportunistas que aguardam sua oportunidade de agir contra o interesse público.

Sendo assim, o balanço dos movimentos de massa de junho de 2013 no Brasil, que começaram pelas redes sociais na Internet e amansaram-se pela imprensa, tem menos a ver com democracia que com um conflito de paralaxe de cidadãos.

Ao sairmos às ruas e situarmo-nos como manifestantes, descobrimos que não somos “baderneiros”, “vândalos” e “agitadores” como a televisão nos desenha. Em vez disso, todos temos alguma demanda política séria a fazer para que o Brasil melhore. Cansamo-nos de viver sob aparências e enganos.

Bruno Peron Loureiro

Bruno Peron Loureiro - Bacharel em Relações Internacionais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), escreve artigos sobre Brasil e América Latina.                                                    E-mail: brunopl@terra.com.br