Vagido de um país pós-democrático

Por em 1 de agosto de 2013

Os protestos no Brasil têm mais a ver com o subdesenvolvimento da meia-cidadania dos brasileiros que com o sobre desenvolvimento das instituições democráticas. O que entendemos como avanços democráticos (ou falta de democracia, nalgumas situações) tem menos a ver com este regime político (a democracia) e mais com a estagnação de nossa formação cidadã.

Isto se deve a que temos dificuldades ingentes no uso dos canais institucionais que o regime político democrático nos oferece. Destarte, o grito do “gigante” que “acorda” é uma alusão ao reconhecimento dos direitos e deveres dos cidadãos através dos canais democráticos existentes. No entanto, há divergências entre os que dirigem o “gigante” e os que estão no banco de passageiros. A proposta mais ambiciosa do governo é a reforma política, enquanto os manifestantes organizam-se para uma revolução social.

Assim, a presidente Dilma Rousseff cogitou um plebiscito para repartir o banquete do poder com o povo. Esta intenção super-democrática logo se arrefeceu pelo freio do Congresso Nacional, que não o proporá para votação popular antes das eleições de 2014. O calor das revoltas, contudo, perturba a presidente Dilma e os governadores dos estados onde se bloqueiam rodovias e se pratica a violência. Eles não querem nenhum ato que prejudique quem não protesta. Portanto, o direito de protesto entra em conflito com o de ir e vir. Para citar um exemplo, manifestantes queimaram todas as cabines de pedágio da rodovia de Cosmópolis (interior de São Paulo) que está sob concessão.

O impacto nacional e global dos protestos, a pressa parlamentar de tomar decisões e a reviravolta na imagem exterior do Brasil contribuem para uma reflexão sobre o papel dos cidadãos nas instituições. Até meados de junho de 2013, acreditou-se na sobrevalorização dos modelos institucionais de nossa democracia. Este é um efeito psicossocial que os brasileiros herdaram das lutas pelas Diretas Já e da sensação de liberdade devido ao incentivo ao consumismo.

Porém, o mapeamento dos protestos dá resultados surpreendentes para os que depositaram sua confiança unicamente no cofre da democracia. A sucessão de eventos de junho e julho de 2013 desperta a população e não o país.

Não é o país que se levanta porque quem está fora – e observa os cartazes contra a Copa e os políticos de modo geral – nota a mácula da imagem de Brasil emergente e paraíso de oportunidades. Enquanto isto, nem todos os que estão dentro compartilham uma luta anti-sistêmica (por exemplo: o pedido de ciclovias para incentivar as pedaladas, e a crítica aos termos do Ato Médico).

Portanto, a população brasileira brinca com o quebra-cabeça da democracia e procura canais através dos quais erupte o fogo que arde dentro de cada um. Este efeito pirotécnico tem nos meios de comunicação seu maior amparo intelectual, embora o extintor que eles usam tem dono e prazo de validade.

Aconteceu um pouco daquilo que eu esperava. Os manifestantes perderam gradualmente o controle da situação. Do mesmo jeito que tudo começou pelos meios de comunicação (redes sociais da Internet com sede na Califórnia), tudo tende a terminar pelos meios de comunicação através das denúncias de espionagem EUAna no Brasil. Os olhos do Tio Sam não piscam uma só vez.

Ainda bem que o subsolo brasileiro é generoso porque, só assim, os ministros e os parlamentares discutem se melhoram ou não a educação e a saúde. Aloízio Mercadante – Ministro da Educação – defende a divisão dos royalties do petróleo da Bacia de Santos em 75% para a educação e 25% para a saúde. Do contrário, teríamos mais um ponto favorável aos Brasileiros pocotó que Luciano Pires lamenta. A divisão de bonificações que vêm da exploração do petróleo é a forma mais recente como se discute a entrega deste nosso recurso natural.

A fumaça dos ânimos que se acalmam pelos extintores dos meios de comunicação é a ferramenta que a população possui neste país pós-democrático. Enquanto quase sempre botamos a culpa das desgraças no outro, pouco fazemos para desenvolver uma sensibilidade política que efetivamente transforme o país num lugar justo e bom para todos. Portanto, os protestos trazem mais uma chance de juntar os escombros para um recomeço feliz.

Assim espero que a greve sindicalista de 11 de julho tenha contribuído para as lutas gerais dos brasileiros. Neste episódio, trabalhadores de vários setores (bancos, construção civil, magistério, metalurgia, servidores públicos, transporte, etc.) uniram-se para reivindicar algo mais que aumento salarial.

O grito das massas nas ruas enseja o vagido de um país pós-democrático.

Bruno Peron Loureiro

Bruno Peron Loureiro - Bacharel em Relações Internacionais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), escreve artigos sobre Brasil e América Latina.                                                    E-mail: brunopl@terra.com.br