Brasil: Arca de Noé do mundo

Por em 26 de agosto de 2013

A modernidade fortalece a tensão entre ilusão e contradição no Brasil. Focalizo, nesta oportunidade, aspectos antropológicos da imigração, da miscigenação e da receptividade sem os quais não se entende devidamente o Brasil. Da mesma maneira, o país cultiva seu espaço como acolhedor e conciliador de um pouco de cada canto do mundo em transformação.

Historicamente o Brasil real (re)constrói-se sobre a relação entre a versão oficial (o que o governo quer dele) e a versão ideacional (o que seus cidadãos pensam dele).

O Brasil não é só de diversidades e pluralidades. Nele, há também um intercâmbio de diferenças através do qual as identidades forjam-se no discurso oficial, que aplica ações afirmativas para incluir o diferente no nacional, mas se contrastam no plano ideacional. Tomo a comparação entre modelos de assimilação imigratória. Ela é multicultural nos Estados Unidos e na Inglaterra, o que significa a afirmação e a coexistência de grupos étnicos diferentes, enquanto é intercultural no Brasil, o que implica uma combinação étnica que justifica os contrastes ideacionais.

Todo brasileiro tem um pouco de amarelo, branco e preto. Como falar de cores pode ser algo tão capcioso e malévolo quanto o efeito que terão as políticas de “cotas raciais”, dou mais detalhes desta configuração antropológica que vai muito além da miscigenação. O Brasil sempre se amalgamou e, neste país, pouco se conhece das essências (americanas, europeias e africanas). Há diversidade infinita de procedências e culturas mesmo dentro de cada (suposto) grupo étnico. O que significa ser branco? E ser negro? E ser índio? Pelo curso natural, o brasileiro surgiu da miscigenação destes e se (re)constrói por outros grupos étnicos que chegam de todo o mundo. Um exemplo disto é que pessoas de pele clara também praticam capoeira e umbanda.

Os últimos são os haitianos que entram no Brasil pelo estado do Acre. Muitos deles têm conseguido sua legalização como imigrantes frente ao Estado brasileiro. É preferível o chapéu do Estado brasileiro, que lhes tem dado oportunidade de viver e trabalhar em território nacional devido aos desastres naturais e à incompetência política no Haiti, ao da França, que ainda se crê berço da civilização a despeito da sua história covarde em relação a suas ex-colônias.

Os indígenas e africanos deixaram seu legado ao Brasil no vocabulário da língua portuguesa (arara, tatu, caboclo, tocaia), nos alimentos (abacaxi, caju, amendoim, babaçu, mandioca, polvilho, paçoca, feijoada, acarajé, vatapá, mungunzá, baba de moça, azeite de dendê), nas crenças (candomblé, umbanda), nos nomes de lugares (Ibirapuera, Jaú, Tatuí), na música (samba, tambores, maracatu, moçambique), na dança (capoeira) e nos objetos e utensílios.

Quando se fala de políticas de ação afirmativa para inclusão de raças, praticamente o único critério que se tem é a tonalidade da pele, o que é deprimente como critério científico. Todo brasileiro se educa como brasileiro. O problema não está nas raças senão no sistema educativo e nas nossas referências ideológicas e valorativas, que nos ensinam a admirar a Europa e seu herdeiro caçula Estados Unidos em vez de conhecer as particularidades do Brasil.

Desta forma, o preconceito está na mente, nas ideologias da modernidade-mundo, na colonialidade (como sustenta Walter Mignolo em La idea de América Latina) como filho prófugo do colonialismo, e na forma como criamos e imaginamos nossas identidades em relação ao outro. Não se combate o preconceito afirmando-o, corroborando-o e reproduzindo-o, portanto.

Mas algumas questões estão ainda sem resolução: como descolonizar o Estado brasileiro; a colonialidade como problema em vez do racismo numa nação de essências incertas; o risco de redução das diferenças entre grupos que reconhecem estas diferenças quando a sua existência não gera conflitos e rancores; a demarcação de territórios indígenas, que tentam manter seus costumes na orla da divisão política brasileira e defendendo-se dos neo-bandeirantes.

Nem toda prescrição europeia se aplica bem no Brasil (como Roberto Schwarz acusou a incompatibilidade do liberalismo nas instituições escravistas brasileiras). Em vez disso, nosso país ufana-se de avanços próprios, como a quebra das patentes sobre o tratamento de portadores de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) e o uso de urnas eletrônicas durante as eleições. Um refere-se ao âmbito da proteção à saúde e outro, ao da política democrática. Sem falar da a invenção e da produção de aviões, entre outros resultados tecnológicos.

Acabei tomando o caminho da questão étnica para introduzir meu argumento neste texto, porém a inspiração que tive para redatá-lo é a prerrogativa que se atribui ao Brasil como “coração do mundo”, “pátria do evangélio”, “crisol de raças” ou um lugar que marcará um momento de transição planetária. Até lá, a rejeição do Ocidente converter-se-á na recepção do Brasil.

A humanidade afoga-se em seus próprios dilúvios.

O Brasil constrói a Arca de Noé de uma Nova Era.

Mas outros países terão o mesmo papel no mundo.

Reinará, assim, a conciliação no lugar do rechaço.

Bruno Peron Loureiro

Bruno Peron Loureiro - Bacharel em Relações Internacionais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), escreve artigos sobre Brasil e América Latina.                                                    E-mail: brunopl@terra.com.br