Junho transpira saudade na vida de Paulo Roberto

Por em 21 de julho de 2014

(No meu tempo de criança XXXV)

Quando mês de junho chegava, os moradores da Vila Mecânica já sabiam que era tempo de festa. Principalmente quando era São João. Já de manhãzinha, a garotada se agitava. Era uma verdadeira maratona para arrumar lenha para a fogueira. Paulo Roberto Poli não esquece estas emoções! Ele se lembra que os maiores saiam à caça de tocos que manteriam a fogueira acesa por mais tempo.

As mulheres se agitavam na cozinha, preparando guloseimas: eram doces, bolos, sucos e quentão. Vinho quente ainda não era tradição, lá pela metade da década de 1960, início da de 1970. Tudo isso era preparado ali, onde hoje tem a Sifco e o Sesi, onde os garotos jogavam bola e, nesta data ocorria a festa. E lá vem a noite caindo, lá vem o pessoal chegando, com sorriso nos lábios, prontos para as emoções que iriam acontecer em breve.

A primeira ação era rezar diante das bandeiras dos santos. Paulo se lembra que era aquela, em forma de triângulo, com as figuras de Santo Antonio, São Pedro e São João. Tudo muito bem enfeitado, com flores e cipó de São João. Depois da reza, as bandeiras eram levantadas no mastro, debaixo de muitos fogos e aquela festa da criançada. Fogueira acesa! E começava a festança ao som dos Long Plays (saudade deles…) de Mário Zan e sua sanfona.

E o garoto Paulo apreciava a noite fria caindo e a busca pelo aquecimento ao redor da fogueira, comendo amendoins, pipocas, arroz doce, canjica, pinhão e bolo de fubá. E Paulo se diverte ao se lembrar disso tudo, pois, como ele mesmo diz, “parece que não se faz mais frio como antigamente, pois a gente nem chega a bater o queixo…” E tinha agente que se arriscava a assar batatas na fogueira. Paulo diz que sente o sabor das batatas ate hoje e as queimadas na boca também… E dá-lhe fogos!

Um verdadeiro show, um espetáculo, com fósforos coloridos, busca-pés, vulcões e bombinhas. Ah! Claro! Balões, muitos balões. Naquela época haviam muitos bolões no céu! E não eram pequenos. Chapéu de Padre, Nossa Senhora, Mexerica, Charuto, Zeppelin, Caixa, Estrela, tomavam conta do céu! Verdadeiras obras de arte. E todo mundo ajudando a segurar os balões, esperando até ficarem bem cheinhos de ar quente e aí… aí soltar e ver o balão subindo, subindo e passeando pelo céu. Era lindo ver aquela imagem majestosa e colorida, iluminado pela “tocha” de fogo.

Tocha feita de estopa e tudo mais que era inflamável, como breu, parafina, cera e, por último o querosene… E depois que o balão subia, acompanhávamos até virar um pontinho luminoso no céu… E sempre que junho se diz presente no calendário, Paulo sonha, viaja. Sua mente flutua no espaço como os balões! E lhe vem a lembrança das alegrias de criança, de sentir o frio, o cheiro da lenha queimada, o gosto dos doces, o som das músicas e a devoção das rezas daquelas noites de junho…

(Uma história de Paulo Roberto Poli. Texto: Nelson Manzatto)

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/