Doutrinação a esmo

Por em 5 de outubro de 2014

O Brasil é palco de casos incontáveis de doutrinação a esmo. Já que neste país não se definiu uma rota coerente pela qual a educação de sua gente deve passar, métodos discordantes agrilhoam seus meio-cidadãos. Não faltam exemplos que somam experiências nas formas de consumo, nos livros didáticos e nas sociedades religiosas.

Não chego a essa conclusão só porque o Brasil é o paroxismo de práticas espiritualistas. Aqui qualquer personagem minimamente convincente que fale sobre o destino da humanidade e os mistérios da psique ganha adeptos. Enquanto o Brasil enaltece os espiritualismos, os Estados Unidos são criticados pelo excesso de materialismo, como o escritor uruguaio José Enrique Rodó fez há mais de um século em seu livro Ariel (1900).

É desse materialismo que emana o desejo irrefreável que brasileiros têm de comprar e fazer parte deste mundo high-tech, ultramoderno, agitado e um tanto sem rumo. Sem se importar com os meios requeridos para alcançar os fins desejados, brasileiros endividam-se para falar através do iPhone 5, que virou símbolo de status social entre adolescentes, e fazem gambiarras em receptores para ter acesso a centenas de canais de televisão.

Falta, portanto, vergonha na cara quando queremos presidentes ilibados e deputados que façam mais exercícios que o Tiririca no Mamódromo Nacional. E o que dizer dos reais, dólares e euros que fluem de dentro para fora do Brasil e deixam o país em carestia e seus meio-cidadãos sem recursos para o sonho consumista?

Em seguida, façamos uma meditação sobre os hábitos de leitura dos jovens, já que este texto enfoca questões doutrinárias e educativas. Constatamos que não se lê menos, como muitos acreditam. Hoje se passam muitas horas na frente de telas de vários tamanhos com aplicativos e programas eletrônicos. Por isso, escolas adotam equipamentos de informática na esperança de que somente eles impulsariam a eficiência de ensino, enquanto a Globo denuncia casos de eliminação de livros didáticos novos como lixo orgânico por “falhas administrativas” apontadas por um governo local.

Estas e outras experiências dissaborosas comprovam que o Brasil sofre de problemas de doutrinação. Quando se acreditava na capacidade educativa de pais em relação a seus filhos e de avós a seus netos, descobre-se que amiúde os mais velhos deveriam frequentar escolas junto com seus filhos. Muitos deles também têm muito a aprender a amar a vida e valorizar seu papel cidadão.

O Brasil tem muitos laboratórios sociais, que rendem pelo menos alguns resultados positivos nas contas do governo para que aqueles se mantenham em funcionamento. Quando uma série de resultados é negativa, é preciso mudar a fórmula para evitar tragédias maiores. No Brasil, só uma reforma política profunda e inclusiva derrubaria os embaraços que se alternam no poder. Logo, é preciso mudar os dedinhos que controlam os títeres presidenciáveis.

Mas esse cenário de mudanças só se tornaria realidade através da instrução popular (que se apregoa pelo menos desde as pedagogias esquecidas do sergipano Manoel Bomfim), da valorização da cidadania e do reconhecimento do espaço público como um lugar de todos. Enquanto isso, vemos logradouros de convivência como pertencentes a ninguém; assim, por exemplo, atiramos descaradamente dejetos em áreas públicas e somos displicentes com calçadas quebradas.

Portanto a espiritualidade que tanto se atribui ao Brasil em seu papel moralizador e civilizador da “nova era” deve passar por reformas íntimas tardias, mas prementes, de seus meio-cidadãos. Temos que colocar conflitos doutrinários de lado – ou aboli-los de vez – porque estes dividem o país pela fé em vez de integrá-lo para o bem comum. Não é por acaso que muitos charlatães abusam da credulidade de sectários para arrebatar-lhes dinheiro, confiança e tempo. Constroem templos suntuosos que concentram esforços mirabolantes de doutrinação.

Os espiritualismos grassam no Brasil a fim de que seus meio-cidadãos virem fieis. Culpam-se os deuses pelos transtornos humanos. A política vira messianismo. Porém, ao mesmo tempo em que sociedades religiosas conseguem adeptos, o Estado titubeia para formar cidadãos.

Muitas vezes me perguntam de quem é a culpa pelo Brasil ter dado errado.

Imediatamente replico que não se distraiam com o Presidente da República.

 

Bruno Peron Loureiro

Bruno Peron Loureiro - Bacharel em Relações Internacionais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), escreve artigos sobre Brasil e América Latina.                                                    E-mail: brunopl@terra.com.br