Questões pífias

Por em 30 de novembro de 2014

Progresso caminha com mudança de mentalidade no Brasil. Já passou o tempo de culpar as nações atrasadas que colonizaram a América do Sul e impuseram sofrimento em troca de riqueza fácil (ouro, prata, açúcar).

Agora, resta-nos um exame introspectivo a fim de descobrir o significado de constituir uma nação nova e lutar por ela. Mas a luta que defendo é simbólica, interna, sem derramamento de sangue.

Já não falo de divisão do Brasil senão de polarização entre interesses, vontades e perspectivas de progresso. O Brasil finalizou um processo eleitoral apertado, que se definiu por uma diferença de quase 3,5 milhões de votos numa população de 201 milhões. A palavra “mudança” vigorou nessas eleições, até entre eleitores da candidata vitoriosa.

Escrevo, porém, sobre uma questão um pouco mais delicada que polariza o país, grosso modo, entre expectativas paternalistas, de um lado, e desvinculadoras, de outro. Há que dividir as tarefas cívicas, isso sim.
Um cidadão não exerce seus deveres num barco isolado, mas junto de outros que também acreditam num espaço mais fértil de convívio e interação.

Ser cidadão, contudo, tem sido um grande desafio de brasileiros que desperdiçam suas atenções em questões pífias.

Algumas delas são a intolerância e a perseguição (principalmente as de gênero, pele e religião), as falsas verdades que geram muitos adeptos imprudentes, e o sensacionalismo e a banalização da violência nos meios de comunicação. Igualmente, dedicamo-nos a fofocas e malfeitorias, mas esquecemos que há algo mais importante e prioritário em que pensar, por exemplo na educação cívica e na reforma íntima.

Os sintomas do Brasil no momento são um tanto desencorajadores e perniciosos para o progresso da nação. Adiamos um futuro brilhante e pacífico para o Brasil por conta de nosso despreparo cívico e nossa puerilidade moral. Por isso, reitero que precisamos embarcar numa reforma profunda de nossos pensamentos e nossas atitudes.

Não tenho dúvidas de que há pontos de luz que sinalizam boas intenções diante de tanta escuridão. Brasileiros elevados moralmente se veem rodeados de “operação” disso e daquilo para combater ações corruptas, de casos acintosos de desrespeito ao próximo, e de marasmo cívico que se reproduz em nossas instituições educativas.

Nesse contexto, menciono um princípio adamastor desse marasmo cívico: depositamos toda nossa confiança nos prazeres da cultura oral em vez dos labores da cultura letrada. Por exemplo: os televisores estão sempre
ligados nas crueldades da herança deletéria de nossa cultura da fofoca, da destruição e do desperdício. Poucos brasileiros realmente se “ligam” no desmatamento irresponsável no interior do país e nos efeitos catastróficos de períodos de seca no Sudeste do Brasil. Tudo soa como um desequilíbrio fortuito da natureza. Nossa ilusão.

Por conseguinte, o gás asfixiante da má educação de número grande de brasileiros sufoca os anseios de progresso cívico, familiar e nacional daqueles pontos de luz escassos que mencionei. Pensa-se na natureza como um
ente a nosso favor, e nos outros humanos como seres disputadores de espaços e posições. Temos sede de saber!

É por isso que acredito que haverá mudança de vibrações e de era. Evidentemente, essa transformação psíquica e social não ocorrerá num piscar de olhos nem com poucos esforços benfeitores. A primeira anulará a beligerância que há tanto tempo toma conta da psicosfera de nosso planeta. Assim, qualquer ser humano pensará dez vezes antes de cometer crimes contra seus semelhantes e outras espécies.

A consciência nos dará o primeiro conselho amigo. Para isso, é preciso higienizar nossos pensamentos.

Bruno Peron Loureiro

Bruno Peron Loureiro - Bacharel em Relações Internacionais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), escreve artigos sobre Brasil e América Latina.                                                    E-mail: brunopl@terra.com.br