Histórias de Padre Hugo

Por em 5 de setembro de 2015

Alguns dias antes de minha Primeira Comunhão, em outubro de 1959, padre Alberto, o vigário de Vila Arens, chamou as crianças para os bancos da frente, na Igreja, e apresentou a todos um padre que eu ainda não conhecia e que tinha o nome de Hugo.

Com um sorriso nos lábios, padre Hugo deixou a sacristia e apareceu diante do altar principal da igreja, para conversar com as crianças.

E seu objetivo era um só: convidar a todos para participar da Cruzada Eucarística Infantil.

E a conversa foi tão produtiva, pelo menos para mim, que cheguei em casa anunciando que, feita a Primeira Comunhão, pertenceria à Cruzada. Falei com entusiasmo do padre que acabara de conhecer e da conversa que ouvira dele.

E no primeiro domingo depois da Primeira Comunhão, lá estava eu de terno azul marinho, gravatinha borboleta, camisa branca, integrando o grupo de cruzados. Padre Hugo comandava as reuniões dominicais após celebrar a missa das 7h30 que era a das Crianças e que tinha como orientador da celebração, o padre Alberto, já que as missas ainda eram em latim.

Fazia o mesmo nas tardes de segunda-feira, quando os mais novos se reuniam para aprender mais sobre a Doutrina Cristã e incentivava a vocação sacerdotal. Apesar do grupo de zeladoras – moças com mais tempo de Cruzada e que ajudavam a tomar conta das crianças durante a missa -, padre Hugo gostava de comandar tudo.

Com o passar do tempo, comprou um aparelho de som, várias coleções de discos com aulas de catequese e fazia as reuniões de domingo. Abria a reunião com orientações básicas da semana, ligava a sonata, colocava o disco, verificando o tempo de duração do mesmo, deixava as zeladoras tomando conta e ia atender confissões.

Jamais falhou: cinco minutos antes de terminar o lado A do disco, estava ele de volta à reunião para colocar o outro lado. Mal respirávamos nas cadeiras! Era preciso atenção, pois não sabíamos o que ele iria perguntar ao final do outro lado do disco. Voltava, questionava e dispensava as crianças, sempre com a orientação de que era fundamental obedecer o pai, a mãe, a professora e as catequistas e jamais mentir para quem quer que fosse.

Sabíamos que nas primeiras sextas-feiras de cada mês, ele saia cedo, visitando os doentes da paróquia e levando comunhão a cada um deles. Isso se repetia muitas vezes aos domingos, quando não precisava ir, de bicicleta, até a então capela de Nossa Senhora Aparecida – hoje Santuário de Aparecida – na Vila Rami, para celebrar a missa das 10 horas.

Mas o tempo fez com que ele deixasse Jundiaí e fosse trabalhar em Machado, interior de Minas Gerais, sua cidade natal, isso já no início da década de 1970.

Fui revê-lo em 1982, quando veio participar da celebração da primeira missa de meu irmão Antonio, que estava se ordenando padre.  E nesta época já era Padre José, retomando seu nome de batismo. Antigamente quando os padres se ordenavam, mudavam de nome para mostrar sua nova vida e a seguir os passos do Cristo. Hoje em dia, apenas o papa altera seu nome. Nunca mais o vi!

Mas no final da década de 1990, um grupo de criminosos o matou, quando atravessava um rio, de barco, em sua cidade natal, onde ia visitar doentes. Segundo os culpados pelo crime, o confundiram com outra pessoa.  O fato tomou conta de quem o conhecia…

Mas hoje, acabei me emocionando ao me lembrar deste homem e ao fazer uma busca na internet, descobri que sua cidade natal o homenageou, dando seu nome a uma escola municipal. E a escola faz exatamente como ele fazia: ensinava os outros…

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/