A Hora Nipônica de Iwao Miyahara

Por em 2 de outubro de 2015

Quando vi a programação da rádio, no meu primeiro dia de trabalho, me surpreendi: é que às 18h30 entrava no ar o programa “Hora Nipônica” e isso me mostrou algo que nunca tinha visto: um programa só para japoneses em Jundiaí.

Mas antes mesmo de o programa entrar o no ar, já imaginei o lado positivo: toda a colônia estaria ligada na rádio. E assim que o programa de esportes saiu do ar, vi um senhor entrar na técnica com alguns discos, sorriso permanente nos lábios e seguir para o estúdio onde eu estava. Tudo isso no ano de 1968, na rádio Santos Dumont e convivi com este senhor até final de 1969.

Iwao Miyahara tinha esta rotina diária: passar pela técnica, deixar os discos, mostrar a sequencia musical e seguir para o estúdio. Era meia hora de programa, com músicas japonesas, duas, três no máximo, discos de 45 rpm. Nos intervalos entre uma e outra entravam propagandas lidas por mim. Ao término da leitura, Iwao anunciava outra melodia, e com o braço assinalava para a técnica soltar a melodia.

O sorriso permanente de Iwao é que me motivava a continuar a trabalhar na rádio. Afinal, não haviam folgas nem feridos: de segunda a segunda, tanto que decidi deixar a rádio e acabei me acertando no Jornal da Cidade. Era comum ele chegar ao estúdio, me cumprimentar e, colocar sua mão sobre meu ombro para dizer que “temos que continuar”, no seu sotaque japonês.

Certa vez, me esperou deixar a rádio. Ao chegar ao portão, ele me segurou pelo braço, atravessamos a rua Coronel Leme da Fonseca até a rua do Rosário e seguimos até a Barão do Triunfo. Logo na esquina, apontou com o dedo: “minha mercearia!” Entramos, me apresentou ao seu filho e preparou uma vitamina para mim. Me apoiei no balcão, como faziam todos os fregueses, saboreei a vitamina, agradeci e vi seu sorriso se perpetuar na minha memória.

No final de 1969 deixei a rádio e, no último dia, antes do programa começar avisei Iwao de que seria nosso último trabalho junto. Ele ficou sério o programa todo e, na hora de encerrar, olhou para mim e disse: “encerra você!” Olhei para ele assustado, fez sinal e lá fui eu: “A Rádio Santos Dumont encerra mais um programa Hora Nipônica. A todos os ouvintes ‘arigato’ e ‘sayonara’. A gargalhada dele só não foi ouvida por todos, porque a técnica de som cortou o microfone. Mas todos nós rimos desta despedida que se completou, pela última vez, em sua mercearia e com mais um copo de vitamina.

Foram muitas as vezes que deixava o jornal e subia até o Centro pela Barão do Triunfo, para cumprimentar Iwao. Depois de minhas férias, ainda na década de 1970, passei diante da mercearia para matar a saudade. A porta estava fechada e nunca mais a vi aberta. Não sei se fora vendida ou se mudara de local. Nunca mais ouvi o programa porque no horário estava trabalhando, mas confesso que o sorriso e a cordialidade de Iwao Miyahara estarão sempre presentes em minha memória.

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/