A rápida passagem de Marcelo Zeni

Por em 9 de outubro de 2015

Existem pessoas que, não sabemos por que, passam por nossas vidas e deixam marcas profundas. E Marcelo Zeni é exemplo típico disso. Me lembro de sua alegria de viver e de sua luta para continuar. Uma luta que terminou cedo porque ele se foi bem antes dos 40 anos. Conheci Marcelo na década de 1970 na JCM – Juventude Cristã em Marcha – um grupo de crianças, jovens e adolescentes que existia na Paróquia de Vila Arens, em Jundiaí, e que substituiu a Cruzada Eucarística Infantil. Deveria me lembrar dele porque era mais um membro da família Zeni que passara pelo grupo: me lembro de Maria Angela, Adalberto, Maria Elídia, Afonso e depois ele, o mais novo da família de Pedro e Elídia Zeni. Ele, um homem de apenas um braço que perdera o outro num acidente, e que dirigia o caminhão da Vic Maltema, produto similar ao Toddy e Nescau.

Mas, disse que deveria lembrar-me dele, por conta da família, mas o que gravou Marcelo em minha vida foi sua vontade de viver, seu sorriso constante, seu olhar buscando sempre novos horizontes. Marcelo, quando o conheci, não tinha mais do que dez anos. Acho que nem chegara neles ainda! Deixei o grupo quando mudei para Campinas por conta da profissão e ele desapareceu da minha memória. Mas não foi para sempre!

Reencontrei Marcelo quando voltei a morar em Jundiaí, já na metade dos anos 1990. E ele era meu parente: casara com a filha de meu primo Norberto Perboni, mas o contato não passava de simples “olá, tudo bem?”, “abraços à família”. Até que um dia ele me descobriu no comando da redação do Jornal de Jundiaí e isso já estávamos neste milênio. Ligou para dizer que estava enviando uma carta para sair no espaço dos leitores e queria saber se poderia ser publicada. Me chamou de “tio”, rindo, como nos tempos da JCM, mas fui obrigado a corrigi-lo, dizendo que agora a gente era primo, muito mais parente do que o “tio” que ele dissera.

Carta publicada, telefonema de agradecimento e, uma semana depois, o fato se repete. Foram várias vezes que me enviou carta para publicar. Discutíamos o assunto, falávamos sobre política, sobre a cidade e sobre família. De repente, Marcelo sumiu: uma semana, duas sem ligar. E isso me fez lembrar dele. Foi então que soube que estava doente. Uma doença destas que não tem cura e que me fez meditar mais sobre o garoto e o agora homem casado e pai, Marcelo Zeni. E nesta lembrança, ele reaparece numa nova ligação: voz baixa, sorriso fechado, mas senti, mesmo sem vê-lo que havia uma vontade grande de viver: “to aqui ‘tio-primo’, to lutando, vencendo batalhas, perdendo outras, não sei até quando, mas a vida é assim, não é? Segue aí outra carta, veja se dá para publicar. Estou superando o tratamento, mas acho que vou longe ainda.”

A conversa não foi além, foi a última. A carta saiu no dia seguinte. Alguns dias depois quando chega a lista de necrologia à redação, meus olhos visualizam seu nome. Confesso que me emocionei. De novo me lembrei do garoto, agora jogando bola na quadra do “Dragão Mecânica”, depois o já homem casado e senti que a vida nos prepara peças incríveis, mas nos dá lições de pessoas maravilhosas e cheias de alegria e vontade de viver. Como Marcelo Zeni que já se foi há dez anos imagino eu.

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/