A música de Áureo Cardoso

Por em 30 de novembro de 2015

Minha convivência com Áureo Cardoso ocorreu durante as décadas de 1960 e 1970, na minha fase infantil e já adulta, mas tudo dentro da Igreja de Vila Arens. Neste período, fazíamos parte da Cruzada Eucarística Infantil que depois recebeu o nome de Juventude Cristã em Marcha. Comecei como criança, logo após a primeira comunhão, e Aureo já estava por lá, juntamente com sua esposa, dona Leonor. Ambos ligados à música, principalmente.

Aureo nunca frequentou uma escola de música, jamais conseguiu ler uma partitura por completo, mas tocava piano e acordeão como ninguém. Dentro de seu conhecimento musical, acabou sendo o responsável pela formação, já na segunda metade da década de 1970, do conhecido “G9”, grupo de cantores da paróquia e que cantavam em solenidades especiais. Era “Grupo Nove”, simplesmente porque cada horário de missa de final de semana, tinha um número: duas missas no sábado à noite (18 e 19horas), cinco nos domingos de manhã (5h30, 6h30, 7h30, 8h30, 9h30) e mais uma à noite (18 horas). O nove, portanto, era a escolha de integrantes de cada missa para compor o grupo especial. Chegamos a cantar até em latim, mas à custa de muitos ensaios e quatro vozes.

Aureo era dedicado e atencioso. Além disso, ouvia muito o que dona Leonor dizia, principalmente porque ele não tinha “leitura musical”, pois, como sempre dizia “tocava de ouvido”, mesmo que isso fosse com as mãos… Muitos ensaios ocorriam em sua casa, graças ao piano que tinha e depois as vozes se juntavam para ensaios na Igreja.

Foi ele que me ajudou na juventude, quando deixei de trabalhar na farmácia: uma vez por semana ia à sua casa, para aprender a encadernar livros, manualmente. Naquele tempo, vendiam-se muitos fascículos nas bancas e depois era necessário encadernar tudo isso. Pacientemente me ensinou todos os passos. E acabei aprendendo este trabalho e que me rendeu alguns trocados.

Como presente de casamento de Aureo recebi, eu e minha esposa Rita, a missa cantada na cerimônia. O “G9” esteve presente e cantou as melodias que escolhemos, inclusive a Ave Maria.

Mas como a vida segue sempre em frente, acabamos nos separando quando me mudei para Campinas por conta de trabalho profissional e quando voltei, frequentamos paróquias diferentes, o que nos manteve distantes até o dia em que me despedi dele no velório municipal. Antes, falara com ele quando dona Leonor partiu.

Aureo, além de entender tudo de música também trabalhou na igreja como ministro da Eucaristia e era o locutor oficial da rádio Difusora, quando havia missas ou alguma outra celebração religiosa que tinha transmissão por esta emissora. Rezava, explicava, comentava. Aureo foi assim: um pouco de tudo, mas um conhecedor de muito!

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/