O país da homo-política

Por em 27 de janeiro de 2016

Já faz algum tempo que a política brasileira sofreu uma transformação irreversível. Desde o século 18 na realidade quando ela, por uma série de razões, perdeu um componente fortemente moral e que até então fazia dessa prática algo nobre e de domínio para poucos.

O sistema cultural nesse momento era fechado – ao contrário do atual – e era dessa forma que não havia espaço físico e nem ideológico para se pensar numa “política social”. Daí foi que dois acontecimentos fizeram surgir essa nossa homo-política (e por “homo-política”, que se entenda, quero dizer uma política feita “para” e “pelo” homem tão somente).

Primeiro acontecimento: quando derrubamos a antiga crença de que as coisas eram partes do Divino. Inclusive a política.

Também foi importante para a criação da homo-política a valorização excessiva das coisas mundanas e particularmente da figura do homem que passou a ocupar nesse meio o poder do mesmo Deus que antes ele apenas cultuou.

Mas essa nova política trouxe também uma grande questão para o imaginário coletivo:

“Como gostar de uma política que valoriza o homem na sua máxima especificidade sem com isso termos que aturar também uma prática feita por pessoas que só sabem prezar pelas suas individualidades?”

Daí a hipocrisia: queremos uma política que banaliza a individualidade e que seja completamente aberta para qualquer pessoa de um lado, mas não queremos que ela esteja nas mãos de pessoas que saibam apenas levar o senso de individualidade ao extremo.

Talvez essa seja uma questão importante para ser debatida agora e sem a qual não conseguiremos pensar em algum tipo de mudança de cenário.

E estaríamos dispostos, pergunto, a abrir mão de uma parte desse sistema que fez da individualidade um objeto da máxima devoção, ou esperamos apenas que isso aconteça com os políticos?

André Schüller é psicanalista e coordenador da Liga de Psicanálise de Jundiaí/SP (getepp@gmail.com) 

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