Falsos guias estão ‘loteando’ trilhas grátis

Por em 3 de fevereiro de 2016
Cuidado com os exploradores e falsos agenciadores

Todo o cuidado é pouco na hora da contratação de guias e agências para qualquer espécie de passeios. Trilhas com entrada grátis e algumas que recentemente foram proibidas estão sendo vendidas por R$ 200. 

Quem nunca sonhou em estar em contato mais próximo com a natureza, contemplar belas paisagens montanhosas, mares, rios e cachoeiras, tudo grátis, belos e formosos, como o bom Deus nos deixou.

E com o dólar às alturas, essa prática aumentou, e muito, nos últimos meses, principalmente com surgimento de novos grupos, que passaram a se organizar para uma viagem de aventura, exploratória e também selvagem: tudo no formato 0800, ou seja, grátis, e que proporciona descontração e conhecimento de práticas que permitem descobrir significados e características da região.

A trilha é uma prática que surgiu há milhões de anos com os grandes animais, principalmente herbívoros, que fugiam do inverno rigoroso em um processo de movimento migratório. Estes foram os precursores desta prática, que foi continuada pelo Proconsul, há 25 milhões de anos, pelo Homo erectus, há 1,5 milhão de anos, pelo homem Paleolítico e também os Neandertais, que migravam a procura de água, alimento e, mais tarde, afim de peregrinações religiosas e guerras.

Hoje, o homem se desenvolveu e passou a entender a real necessidade de deslocamento de pessoas e também de animais. Com o passar dos anos, verificou-se uma alteração de valores em relação às trilhas, passando de um simples meio de deslocamento para se tornar um novo meio de contato com a natureza, incorporando um novo sentido e recebendo m grande número de adeptos.

E por observar essa vertente, com a percepção de que poderia obter um bom lucro em cima da ignorância alheia, algumas pessoas se autopromoveram a ‘guias turísticos’, lotearam as principais trilhas do país e passaram a vender ‘pacotes turístico’, como se vendessem a ‘chave para o céu’ ou um ‘terreno na lua’.

O valor da moeda americana, que atingiu o mais alto patamar desde a criação do Plano Real, também foi um fator que muito influenciou no aumento dos passeios considerados ‘mais econômicos’, com a procura acentuada por parte de grupos de viajantes, mochileiros e aventureiros, com a clara demonstração de interesse por trilhas e caminhadas.

Por outro lado, aproveitando-se deste influenciador, eis que surgem os ‘buscadores’ de dinheiro a todo custo.

E a principal preocupação nesta prática está com a segurança daqueles que se submetem a se aventurar com um ‘falso guia’, que não dispõe de equipamentos adequados ou conhecimento técnico, muito menos de  treinamento em orientação geográfica, técnicas de primeiros-socorros e resgate e, em último caso, de sobrevivência em ambientes inóspitos, já que ocorrências recentes nos provam que a experiência é fundamental na realização de trilhas e caminhadas. Para isso, é primordial que iniciantes aventureiros busquem pessoas capacitadas e que contribuam para a reflexão sobre as questões ambientais.

Outra preocupação é com o surgimento de inúmeras agências, que vêm praticando valores exorbitantes em seus ‘pacotes’, tendo como principal aliado a falta de informação do comprador. Estes pacotes consistem simplesmente no aluguel de um transporte para levar o cliente/trilheiro até o local, onde qualquer pessoa pode chegar de ônibus ou de carro.

Destinos proibidos 

Não bastasse o valor cobrado, alguns dos destinos divulgados estão localizados em áreas de acesso restrito, a exemplo de Paranapiacaba e das trilhas da “Fumaça” e “Cristal”, em Santo André, que recentemente foram proibidas. Sem qualquer pudor, falsos agenciadores burlam as leis para garantir o dinheiro a qualquer custo, inclusive com invasão de propriedades particulares, sem qualquer concessão de exploração.

A região de Paranapiacaba é fiscalizada pela Secretaria de Gestão de Recursos Naturais de Paranapiacaba e Parque Andreense (SGRNPPA), que faz questão de lembrar que toda e qualquer trilha na região está proibida. Entre as áreas de abrangência da SGRNPPA estão, também, a histórica vila ferroviária de Paranapiacaba, a área de proteção e preservação de mananciais da cidade.

Legislação
Leis Municipais n.º 8.157/2001, 8.459/02, 8.704/04, 9.121/2009 e Lei Federal nº 4.320/64.

Explorando na ‘cara dura’

Como exemplo da exploração comercial das trilhas encontramos vários pacotes divulgados nas redes sociais, que vêm sendo comercializados por valores que ultrapassam 1000% (mil por cento) do valor real. Infelizmente, por desconhecerem o custo real dos passeios muitos acabam pagando o valor proposto.

Vejamos, como exemplo, um passeio à ‘Pedra Furada”, que é uma cachoeira localizada no Parque Estadual da Serra do Mar, em Biritiba Mirim, no Estado de São Paulo, (próxima da rodovia Mogi-Bertioga).

Para se chegar lá, o morador da capital de São Paulo vai gastar um ticket de metrô, que custa r$ 3,80 e tomar um ônibus sentido Manoel Ferreira (E392), com preço a R$ 4,00. No total, ida e volta, o trilheiro vai gastar R$ 15,60. No caso da formação de um grupo de 4 pessoas, que opte em seguir de carro, o custo aproximado com combustível para cada pessoa fica em torno de R$ 17, ou seja, praticamente o mesmo preço do transporte coletivo.

Este mesmo passeio, com agências encontradas nas redes sociais, é vendido a R$ 198,00 ou seja, valor que chega a superar os incríveis 1000% (mil por cento).

Ainda nas redes sociais destas ‘agências’ que focam o lucro a qualquer custo e abusam dos preços, todos os comentários que porventura tentam informar a exploração aos desavisados são sumariamente apagados e os autores bloqueados para não mais ‘atrapalharem’ a exploração.

Somente são mantidos na página os comentários favoráveis e que incentivem a compra absurda. E, assim, a exploração continua fazendo vítimas e mais vítimas.

Para Manu Moreira, a prática abusiva dos ‘pseudos guias turísticos’ vem se alastrando pelas redes sociais. Ela foi uma das pessoas que deixaram comentários de alerta na página de uma destas ‘agências virtuais’. “Que horror. Esse passeio dá para fazer quase de graça e vocês estão vendendo por quase 200 reais? Que absurdo!”, disse indignada ao ver o anúncio de Pedra Furada.

Poucos minutos após as postagens que contestavam os valores cobrados nos passeios nesta rede social, muitas mensagens foram apagadas e todos estes visitantes foram bloqueados, conforme ‘print’ (e gravação em vídeo) feito pelo Jornal de Itupeva em tempo real das postagens.

Na mesma página, a agência comercializa a aventura em uma ‘mega tirolesa’ da cidade de Pedra Bela. Na cidade, a aventura custa R$ 40 reais e o transporte em Van, partindo de São Paulo, custa R$ 25. No total, o aventureiro vai investir 65 reais. Já na ‘agência’, o pacote anunciado como ‘promocional’ é comercializado por R$ 138, ou seja, preço 100% mais alto.

Inúmeros outros exemplos de total exploração comercial das trilhas podem ser vistos espalhados pelas redes sociais. Sejam locais ou mais distantes, sempre vão existir os exploradores, preparadíssimos para dar o ‘pulo do gato’ nos mais desavisados.

WhatsApp
Agora, a nova onda é o uso da rede de comunicação instantânea “WhatsApp”, para a promoção das trilhas e aventuras. Na maioria das vezes o responsável é conhecido do grupo, oferece um serviço que pode ser avaliado em experiências anteriores. O investimento é diretamente atribuído aos gastos com transporte, alimentação e hospedagem, quando necessários. O lucro do guia, neste caso, está na quantidade de pessoas que contratam o pacote. Mas sempre aparecem ‘lobos em pele de cordeiro’, que tentam ‘fisgar’ o cliente pela carteira.

Sendo assim, todo o cuidado é pouco na hora da contratação de guias e agências para qualquer espécie de passeio, trilha ou aventura. Pesquise bastante antes de concluir sua compra. Analise, principalmente, as opiniões de pessoas que já viajaram com a agência e compare os preços e veja se você não está sendo enganado. Lembre-se, sempre vai existir um espertinho enquanto houver a falta de informação.