O Carnaval da minha infância

Por em 4 de fevereiro de 2016

Objetivo do padre Hugo que dirigia a Cruzada Eucarística Infantil, na paróquia de Vila Arens, no final da década de 1950 e todos os anos da de 1960 era divertir as crianças enquanto os salões ficavam cheios de foliões nos dias de Carnaval. E padre Hugo fazia tudo com alegria e isso proporcionava vibração das crianças.

A ação criada pelo padre ocorria no domingo e na terça, dias em que as matinês nos clubes chamavam pelas crianças para “pularem” o Carnaval. E no domingo, o padre reunia os cruzados após a missa das 7h30 e criava brincadeiras até por volta das 10 horas. Retornávamos às 14 horas, exatamente no horário que começavam as matines nos clubes e ali ficávamos até as 17 horas. Para ninguém chegar em casa quando a noite já tinha chegado!

Muitos clubes próximos à igreja da Vila Arens proporcionavam carnaval para as crianças no domingo e terça-feira de Carnaval: Ipiranga, Banda, Nacional, além do Primavera, na Vila Progresso, bem perto de onde eu morava. Mas lá íamos brincar nos salões da igreja! Padre Hugo era bem prevenido: tinha uma infinidade de jogos infantis: dominó, tômbola, damas, trilha, ludo. Jogos que não existe mais hoje e uma biblioteca com mais de cem livros, a maioria vida de santos e outros com muitas ilustrações para “chamar a atenção” da criançada. Lanche às 15 horas com muita fruta e Ki suco para dar mais alegria a todos.

Claro que não faltava um pouco de oração e ensinamentos. Mas padre Hugo sabia dosar as coisas e a brincadeira dominava a tarde. Nossa sala principal era em frente ao coreto, na praça da igreja. Mas ela percorria praticamente todo o porão. Nesta sala ocorriam as reuniões gerais, uma porta nos levava até a biblioteca e mais duas salas menores onde ocorriam as aulas de evangelização de acordo com a idade ou tempo de cruzada.

Acho que é por tudo isso que o Carnaval nunca me chamou a atenção. Minha primeira ida a um salão de baile de Carnaval ocorreu quando trabalhava na Rádio Santos Dumont. Domingo de Carnaval chego para trabalhar, na espera de ficar no plantão, no estúdio, quando sou chamado a acompanhar Gilson Lino à matinê no Grêmio. E lá fui eu entrevistar crianças nos intervalos. “Olha a cabeleira do Zezé”, “Cidade Maravilhosa” e “Coração Corintiano” eram as principais atrações. Abrilhantando a festa estava a Orquestra City Swing.

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/