Saboreando torrões de açúcar!

Por em 14 de fevereiro de 2016

Na região da Vila Arens, exatamente em frente ao antigo prédio da Banda (Sociedade Musical e Recreativa União Brasileira), localizada na avenida dr. Cavalcanti, estava instalada, entre as décadas de 1950 e 1960, a Refinaria Santa Maria. O prédio ficava ao lado da Bebidas Ferráspari e, ao lado da Banda estava o prédio da Vinhos e Bebidas Caldas.

A introdução é mais para falar da refinaria onde meu tio Antenor trabalhou até aposentar por doença na década de 1960 e, imagino, foi quando a refinaria fechou suas portas. Tio Antenor era solteirão, morava na refinaria e passava suas horas de folga jogando baralho na Banda onde fez muitos amigos. No início dos anos 60, ele almoçava em casa todo sábado e domingo até se mudar para lá na metade desta década já que a refinaria fechara o quarto onde ele passava as noites. E quando vinha em casa, trazia um pacote cheio de torrões de açúcar.

Esses torrões surgiam porque este açúcar não se refinava e ficavam os pelotes ou bolotas que a empresa descartava. Jogava fora, na verdade. Mas antes deste ato final, tio Antenor recolhia no pacote e trazia para a gente. Estes pelotes eram pouco maiores que bolinhas de gude e que a gente jogava muito com os amigos que moravam na mesma rua, na Vila Progresso. Tio Antenor não tinha preferência por sobrinho. Chegava em casa com o pacote e entregava ao primeiro que encontrava ou simplesmente colocava sobre a mesa da cozinha.

E todos os filhos de seu Alcindo e dona Angelina dividiam o conteúdo do pacote. Dona Angelina apenas orientava para não mastigar as bolotas, mas o gostoso mesmo era sentir o açúcar surgindo, dissolvendo o pelote e sentindo a doçura do açúcar.

Naquela época o açúcar era vendido em pacotes de cinco quilos apenas. Era de papelão e costurado na ponta. Precisava puxar as pontas da linha para poder abrir o pacote de açúcar. Em Jundiaí havia apenas o Santa Maria e o União. Mas o segundo, imagino, ganhou todo o mercado e a Refinaria Santa Maria fechou as portas.

Tio Antenor, com o fechamento da refinaria deixou de trazer – claro – as bolotas de açúcar para saborearmos. Trocou por balas, mas me lembro de que, já nas décadas de 1970 e de 1980 saia cedo de casa, se dirigia à Banda onde passava o dia. E hoje, ao passar pela região da Vila Arens, no início da avenida dr. Cavalcanti me lembrei dos antigos prédios que ali existiam e, confesso, senti saudade dos torrões de açúcar.

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/