A seriedade de Sandro Vaia

Por em 10 de abril de 2016

Tive pouco contato com Sandro Vaia. Enquanto ele já enveredava pelo Jornal da Tarde, no início da década de 1970, eu começava como revisor no Jornal da Cidade, exatamente no lugar de sua esposa, Vera, que deixara o local.

Mas neste começo já ouvia falar muito dele, principalmente por já ter trabalhado neste jornal e porque, no JC tínhamos um amigo em comum: Ademir Fernandes que passava parte do dia em Jundiaí e depois rumava para São Paulo.

Fui encontrá-lo em 2009, quando me aventurei a dar aula em faculdade e o convidei para um papo com os alunos do terceiro ano de jornalismo. O contato por telefone foi rápido e ele aceitou na hora a incumbência! Sério, tranquilo, Sandro contou parte de sua vida profissional, agora já aposentado pois deixara a diretoria de redação do Estadão no mesmo ano que deixei o cargo de editor-chefe do Jornal de Jundiaí.

A curiosidade maior dos alunos era saber como tinha sido o tempo da ditadura e a censura nos jornais, principalmente no grupo Estado quando um dos jornais publicava receita de bolo e o outro, poemas. Após o papo, conversamos por dez minutos na portaria da faculdade. Sandro não demonstrava pressa, gostava de falar sobre jornalismo e comentamos tempos passados nos jornais locais onde trabalhamos, mesmo que em épocas diferentes: ele já estivera no Jornal da Cidade, e depois esteve também no Jornal de Jundiaí.

Lembrou de seu início, no falecido Diário de Jundiaí, que tinha na chefia de redação Waldemar Gonçalves, que também fora meu chefe, anos depois, no Jornal da Cidade. Consegui, graças ao seu nome, que o papo com os alunos se transformasse em reportagem de página dupla no Bom Dia Jundiaí e com chamada de capa.

Feliz, distribui jornais na coordenadoria do curso e na diretoria da Faculdade. Afinal, o nome da escola saíra, com destaque, num jornal de cidade vizinha à faculdade. Sandro me ligou para agradecer a publicação, mas retribui dizendo que eu é quem deveria agradecer pela presença dele na faculdade e pelo espaço no jornal. Percebi seu sorriso do outro lado da linha. Afinal, Sandro era assim: sério, compenetrado, mas alegre e feliz quando o momento lhe permitia.

Trocamos e-mails anos depois, quando publiquei textos no meu blog, comentando sobre minha amizade com Ademir Fernandes que, assim como Sandro, além de palmeirense, deixou cedo este mundo.

E no domingo, no dia em que Sandro foi sepultado, exatamente na hora em que começava o jogo de Palmeiras e Corinthians – e o time de coração de Sandro, Ademir e eu saiu vencedor – percebi o enorme trabalho desenvolvido por ele no tempo todo de trabalho, tanto que o locutor anunciava, no início da partida, que o minuto de silêncio seria em homenagem ao jornalista falecido.

Imaginei, neste instante, a grandeza de seu sorriso e de seu coração e lamentei que ele não acompanhou e nem comemorou o resultado da partida!

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/