Presos em nós mesmos

Por em 22 de abril de 2016
De Schilder 2015 o_leo sobre linho 225x165cm

“Dá um Google ai pra mim”. Assim, enquanto programava um prólogo para esta entrevista fui surpreendido por esta frase, que por hora, me desviou aqui do Word, mas, me locomoveu para o México, as roupas tehuanas de Frida Kahlo e para uma outra frase que está no final desta entrevista “Cada vez presos em nos mesmos”, assim Felipe Scandelari, um dos destaques da Boiler Galeria, durante a SPArte 2016, jogou um pouco de tinta nesta suposta diversidade que seria o ápice de um tempo de informação e nos colocou um questionamento: a diversidade e o acesso a informação estão disponíveis e acessíveis (até certo ponto), mas a partir do momento que podemos selecionar o que vemos, será que vamos procurar por aquilo que não nos atrai, ou vamos nos prender em nossas preferências?

As telas de tons fortes, carregadas por uma tensão quase angelical. No entanto, a rudeza dos traços, trazem força e suspendem os rostos a suplicar. As cenas não reais, mas será que podemos dizer surreais sendo que fora da tela, no entanto, o cenário não muda muito perto do surrealismo do noticiário diário. O sagrado também manda nude para o profano, que, pode ser, nem compartilhe a foto para não “cair na net”, parece que Felipe Scandelari mistura o cotidiano com sublime.

Direto e reto Scandelari que nasceu em Curitiba, estudou artes aqui, participou de exposições ali, fez isso e aquilo e entre uma coisa e outra, conversou conosco sobre o amor, a mídia, arte e outras letras. Superficialidade, non-sense e cultura de massa, um pouco de tudo isso em nós mesmos.

Arte
A arte contemporânea tem muita bosta! Por falta de um termo melhor. E isso é na cara dura! Mas acho que com arte é assim há muito tempo. A história mostra Courbet ou Manet, por exemplo, tendo trabalhado com os acadêmicos que, como alguns segmentos da arte atual, queriam ditar o que era a boa arte. Acredito sim que o corpo pode ser uma ferramenta pra fazer arte. Performances como do Paul McCarthy são muito boas. Assim como outras mídias mais recentes como vídeos do Bill Viola ou a caveira do Hirst. Se isso vai sobreviver como a Monalisa só o tempo vai dizer.

A própria Monalisa é famosa por ser famosa. Uma pintura muito significativa, porém repleta de interesses por trás dela pra que ela seja tão famosa. Existem muitas pinturas tão boas quanto ou até melhores da mesma época, inclusive do próprio Da Vinci.

O artista é uma marca e há interesses inclusive políticos em projetar ou abafar um artista. Não é a toa que inventaram gênios nos EUA nas últimas décadas. A mídia empurra a merda goela abaixo e o público engole. Creio que existem lacunas e elas são ocupadas por aquilo que se encaixar ali antes. O comércio e demanda procuram preencher essas lacunas.

Felipe Scandelari
Acho que busco com o assunto nessas pinturas explorar contrastes e contradições sobre arte e vida. Esses questionamentos são o que busco criar em quem vê minhas pinturas. Qual o significado das coisas? Cara, essa eu não sei responder porque me pergunto quase todo dia isso. Pra que serve minha arte? Pra que serve a Arte em si? A verdade é que eu não consigo fugir de pintar. O resto é que é mais sofrido, a parte administrativa.

A arte que mais me atrai, com exceção das artes visuais é a música. Rock and Roll atual. Daí o nome de diversos quadros meus e também de algumas frases escritas nas pinturas. Trechos de músicas. Estou com uma exposição individual aqui em Curitiba e tive essa idéia: no dia 28 de maio vamos levar as crianças carentes do projeto Dorcas que fica na aqui região metropolitana de Curitiba para conhecer a galeria e os trabalhos. Depois vamos servir um lanche e desenhar um pouco. Talvez faça diferença para uma dessas crianças. São crianças de baixíssima renda que fazem aula de pintura nesse projeto Dorcas.

Eu e Deus
Acho que só quem pode dizer quem realmente somos é Deus. Com certeza não sou o que acho ser e nem o que os outros acham. Apesar que é muito comum me ver nos outros. Daí voltando a primeira pergunta, talvez eu seja só mais um cara fazendo uma bosta e chamando de arte contemporânea.

Sentido no cotidiano
Essa resposta também acho que não tenho. Na verdade busco entender tudo isso sabendo que é quase em vão. Eten é um quadro que fiz com muita agonia, porém lida com o absurdo e a ironia.

Liberdade
(Pra que serve a liberdade? ) Pra fazer novela da Globo!! Brincadeira!
Graças a Deus vivemos num país livre, porém estamos cada vez mais presos em nós mesmos. Essa liberdade nem sempre é bem usada. A superficialidade e o non-sense imperam em nossa cultura. Artisticamente talvez vivamos assim como Sísifo, porém vejo a fé em Deus como uma saída. Não a religião em si.

Mal estar na civilização
Antigamente eu gostava de sair na balada, mas sempre tive momentos de isolamento durante o dia, pintando. Hoje em dia sou casado, tenho uma filha de um ano e 10 meses e fico mais com elas. Se não fosse o Davi meu auxiliar, teria contato diário só com elas.

Meus preconceitos acho que se encontram nessa cultura de massa. Funk ostentação, sertanejo universitário, Britney Spears, Katty Perry, Faustão, Luciano Huck, Pânico na tv, BBB, tirar selfies há toda hora em qualquer lugar. O que me faz refletir sobre eu mesmo é que apesar de não querer admitir tenho muito dessa cultura e superficialidade dentro de mim.

Quanto aos relacionamentos virtuais, sempre fui avesso a mídias sociais, mas estou vendo que dá para se fazer bom uso delas. Fiz um perfil no Facebook em 2009 eu acho, mas só fiquei alguns meses. Mês passado é que voltei nessa joça. Não tenho WhatsApp, Instagram ou Twitter e somente esse mês é que comecei a fazer uma página dos meus trabalhos. Na verdade agora estou na boa com isso tudo.

O Observador que faz o artista
Imagino que a sensibilidade e bagagem cultural de quem vê esses trabalhos. Apesar que dá pra procurar mesmo num trabalho muito ruim algo para se inspirar. Mesmo numa árvore saudável há galhos que secam e caem. A relevância pra cultura e sociedade atual é que está em jogo nesse sistema. Nenhum artista se faz sozinho. Ele depende não só de sua própria disciplina, mas também do meio. Depende dos outros.
Por isso mesmo é que tenho tentado ser um pouco mais social ultimamente.

Extremistas somos nos
Minha humildade e modéstia!!… Brincadeira!!!
Meu, tenho diversos problemas e falhas e a vida sempre dá um jeitinho de uma hora ou outra detonar com meu orgulho. Acho que meu maior problema sempre foram os excessos. Com certeza o amor é a única saída, mas é difícil ser otimista.

Divulgação