O último aceno ao grande romeiro

Por em 30 de abril de 2016
Itupeva dá adeus ao grande romeiro, Dinho.

Homenagem do Jornal de Itupeva ao saudoso leitor, amigo e sempre vizinho: Dinho. 

Nesta sexta-feira, dia 29 de abril, Itupeva amanheceu triste com a notícia do falecimento de Vicente Falco, o “Dinho”, que tinha 74 anos de idade. Familiares e muitos amigos fizeram questão de dar adeus ao fiel romeiro.

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Homem de grande caráter, Dinho, como era conhecido, muito contribuiu com a história do município, tendo chegado à Itupeva antes mesmo desta se tornar cidade e que junto a meu avô, Paschoal Izzo, ajudou a fundar a Associação dos Romeiros, no ano de 1955. 

Ao lado de dona Maria, sua amada esposa, foi proprietário do bar e lanchonete mais tradicional da cidade: o “Bar do Dinho”, que ficava localizado ‘do outro lado da rua’, na avenida Brasil, e fazia, além do mais saboroso sorvete da região, o melhor e mais delicioso ‘misto quente’ que já provei em toda a minha vida. Um lanche que nunca mais provaria igual. Por anos pensei que o segredo seria o catchup na chapa, junto ao queijo e presunto, mas o ingrediente mais provável certamente foi carinho e seriedade com que conduzia seu trabalho.

Lembro-me como se fosse hoje de minha infância. Eu morava em uma pequena casa na avenida Itália, no coração da cidade em que nasci. Uma cerca de bambu amarrada com arame farpado ‘fazia de conta’ que nos separava do vizinho.

‘Do lado de lá’ morava a família Falco: dona Amábile e seo Felício, pais do Dinho, os patriarcas da família.

No bar, Dinho e Maria faziam um longo e cansativo expediente diário de mais de 12 horas. O intuito era lutar pelo pão de cada dia em casa, tendo criado dois filhos, Walmir Falco e Valdemir Antonio Falco, de forma digna e muito respeitosa. E era no horário de trabalho dos pais que, vez ou outra, as crianças eram trazidas da casa que moravam, parede e meia ao clube SBRI, para a casa da avó. Brincavam, ‘pintavam o sete’ e faziam todo tipo de travessuras possíveis, coisas normais à idade. 

Por entre um vão e outro da cerca de arame passavam as galinhas, da mesma forma como eu também passava para a casa vizinha, no intuito de brincar com os amigos no quintal. Lá estava eu, com meus 8 anos, brincando com o ‘Valde’ antes mesmo dele ser conhecido como ‘Valdão’, apesar de naquela época ele já ter uma estatura bem avantajada.

Correr por entre a horta da dona Amábile, subir nas árvores frutíferas do quintal, principalmente na grande mangueira, e bisbilhotar no quartinho do ‘vô Felício’, onde ficavam ferramentas e assessórios de montaria, com selas, ferraduras, arreios e uma velha charrete. Assim eram nossas brincadeiras diárias, aproveitando que o tio Dinho só chegava do trabalho à noite. 

O tempo passou e as crianças cresceram. O ciclo da vida fez a família Falco aumentar.  Walmir casou-se com Luiza Falco, com quem teve dois filhos: Amanda e Eduardo, o Dú. Valdemir cresceu, virou ´Valdão’, casou-se com Dagmar Martinelli Falco, com quem teve três lindas e paparicadas filhas: Fernanda, Carolina e a caçula, Mariana.

Dinho abriu novo estabelecimento comercial, desta vez integrado à casa dos pais. Anos mais tarde Dinho passaria a residir no Vale das Pedras em contato mais próximo com a natureza.  

Maria aumentou a produção de salgadinhos, por sinal, os melhores de Itupeva, principalmente a coxinha de frango. O trabalho começava logo cedo, às 4 horas da manhã, e entre um dia e outro de trabalho, a família Falco foi uma das principais incentivadoras e mantenedoras de uma grande paixão: a romaria.

Um evento que hoje é reconhecido como a maior tradição da cidade, que começou antes mesmo do Distrito de Paz ser emancipado politicamente. Tal longevidade deve-se à abnegação dos pioneiros, entre eles o saudoso Dinho e sua família, que através do exemplo de vida passaram e continuam passando essa importante tradição e fé cristã de geração para geração.

Hoje, a Romaria de Itupeva ao Santuário de Bom Jesus de Pirapora congrega os mais elevados valores da fé e a crença no Deus Todo Poderoso. Como Dinho, sorridente e alegre, sempre costumava dizer nas minhas reportagens para o Jornal de Itupeva, “a Romaria faz parte da nossa vida e manter essa tradição é nossa obrigação e o nosso compromisso. Espero que as pessoas herdem as responsabilidades e que não se perca nunca a tradição dessa nossa romaria. Uma frase que ficará marcada para a eternidade e que demonstra a responsabilidade, o compromisso e a dedicação deste grande romeiro, que faz merecedor do nosso último aceno.

E assim, com o trabalho de homens dedicados à tão justa causa, renovados na perseverança e fé, a cada ano a tradição deixada por “Dinho” e outros pioneiros é revivida, fazendo o perfeito entendimento deste ato entre as gerações, hoje sintetizada no refrão da música “Romeiros e Romarias”, composta pelo Alemão Gutt e Soninha: “Porque romeiro eu sou; Romeiro vou ser até morrer”. 

Acenemos todos a esse nosso grande amigo romeiro. Vá em paz, Dinho”.

De seu amigo de sempre, Luiz Carlos Izzo.