Erros e acertos da revisão

Por em 3 de fevereiro de 2017

Não tinha ainda completado uma semana na revisão do Jornal da Cidade e já imaginei abandonar o emprego. Uma frase dita em voz alta pelo dr. Gustavo, diretor do jornal, no meio da redação, me deixou vermelho e abalado: “a revisão está um lixo Nelsinho!” Como estava sentado e corrigindo um texto, tentei fazer de conta que não era comigo.

A salvação foi o amigo Carlos Ramos que apanhou um jornal sobre uma das mesas e foi mostrar uma foto ao diretor. O fato me deixou assustado. Recolhei três edições diferentes do jornal e li do início ao fim, buscando erros. Encontrei dois, respirei aliviado, e questionei Ramos sobre porque disso. Ele riu e sugeriu que tentasse eliminar os dois e isso não era lixo e a chamada de atenção nada mais era do que fazer com que me esforçasse mais para “zerar” os erros. “Folha e Estadão têm mais erros do que nós”, comentei. “Mas o Gustavo não é diretor lá…”, completou Ramos me deixando sozinho.

Desci à oficina e fui falar com o senhor Cunha, chefe do setor. Ele me mostrou as provas que eu revisara e descobri onde estavam os erros: o linotipista, ao corrigir um erro apontado por mim, acabou errando em outro lugar na mesma linha. Sorri e comentei com Cunha que era importante, após a correção dos erros, tirar uma nova cópia do texto para outra revisão. E assim foi feito! Senti que tinha descoberto a pólvora, mas era fundamental manter a atenção e o cuidado, para não levar bronca, de novo, na frente de todos.

Dias depois, passando em frente à sala da diretoria, dr. Gustavo me chamou. Imaginei que seria demitido. Ele me olhou e disse simplesmente: “traga seus documentos amanhã para ser registrado”. Deixei a sala, mais vermelho do que o dia da bronca. Registrado e função garantida, me entusiasmei com o trabalho. Trocava ideias com Vendramini, o revisor da noite, para tentarmos reduzir o número de erros.

Chegamos até a fazer uma competição, para ver de quem era o maior número de erros no jornal. Tínhamos uma edição do jornal para fazer isso. Era guardada em uma gaveta. Eu marcava os erros e ele conferia à noite. Mas fizemos isso dois dias: achamos que não era interessante ficarmos apontando erros uns dos outros.

Decidimos que o importante era não errar. Para quem não tem ideia do que seja um texto linotipado (composto na linotipo), e ficar sabendo porque o erro mudava de lugar, conto aqui: uma linha é feita de chumbo derretido.

O linotipista tecla, as letras caem e se juntam e em seguida são grafadas no chumbo, exatamente ao contrário do que lemos, como se fosse um carimbo para, na hora de se imprimir saiam corretamente escritas. O bom é que, depois de impresso jornal, o chumbo volta para a linotipo, é derretido e volta a ser usado mais vezes, mas este é assunto para outro dia. (a seguir, a mudança do redator-chefe).

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/