Minha estreia na reportagem e a manchete

Por em 23 de fevereiro de 2017

O trabalho de revisão estava tranquilo: chegava às 13 horas no jornal e quando o relógio marcava 18 horas, me levantava e ia embora, principalmente porque o serviço de linotipia encerrava neste horário e só retomava uma hora mais tarde com os funcionários que invadiam a madrugada.

Como disse, “estava tranquilo!” Numa bela tarde de segunda-feira, Ramos levanta de sua cadeira e joga – literalmente – sobre minha mesa uma edição da revista Veja – única revista semanal existente na época – e duas edições da Folha e do Estadão. “Leia tudo isso aí, saiba dos fatos. Vou diagramar duas páginas que serão publicadas no domingo e sairão dois textos seu.

Primeiro leia, depois a gente conversa.” Ramos deixou a redação e fique olhando aquilo como se fosse um monstro. Tremi, peguei a revista com medo de ter minhas mãos queimadas por ela, mas assimilei o fato e comecei a ler. Duas horas depois ele retorna com duas páginas diagramadas – um desenho do que seria publicado – e com dois espaços marcados com o meu nome. “Você escreve aqui e aqui – apontava ele no diagrama. O assunto é Mobral, como você percebeu. No primeiro você fala do projeto de criação e no segundo você aborda o que o País tem feito para acabar com o analfabetismo”.

Tudo isso estava na revista e nos jornais, bastava eu desenvolver os textos. O problema era o tamanho dos mesmos: um com cinco laudas e o outro com três. Vale dizer que a lauda era a folha de papel colocada na máquina de escrever – com carbono para três cópias – e cada folha continha 20 linhas de 70 toques cada – ou 70 letras e espaços batidos. O Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização – foi criado pelo presidente Costa e Silva em 1967, mas só começou a andar em setembro de 1970, quando Emílio Garrastazu Médici assinou decreto criando recursos para o mesmo.

Objetivo era acabar com o analfabetismo no Brasil. Texto pronto, matéria publicada e a alegria de ver meu nome assinando o texto. Vale lembrar que no ano seguinte Médici esteve em Jundiaí, no Bolão, para diplomar cinco mil pessoas. Jundiaí era a maior cidade a participar do projeto e tinha à frente o advogado Aguinaldo de Bastos (mas este é assunto para outra nota).

E Ramos não perdeu tempo: na segunda-feira após a publicação, me chamou e disse que eu seria repórter especial, que revisão não deveria mais ser meu serviço ali. Engoli em seco, concordei e ele já me passou a pauta da minha primeira reportagem: falar sobre a oficina que acertava os taxímetros da cidade. A loja, me lembro bem, ficava na rua José do Patrocínio, hoje a avenida que circunda a Ponte Torta. Claro que o local onde o prédio onde a oficina estava instalada já não existe mais, foi desapropriado para dar espaço ao progresso. Para que um jornalista consiga êxito na sua profissão é preciso, muitas vezes, sorte! Digo isso porque, no momento de entrevistar o dono da oficina, ele – que não esperava uma reportagem para falar sobre seu trabalho – me informou que, naquela semana, o trabalho aumentaria, pois estava sendo preparado decreto para reajustar a tarifa dos taxis.

O objetivo da reportagem era mostrar como era feita a atualização dos números do taxímetro, quantos equipamentos existiam na cidade, enfim, apresentar o taxímetro ao leitor. Entrevista feita, tendo Luiz Carlos de Camargo como fotógrafo, retorno à redação e relato os fatos ao redator-chefe, Carlos Ramos. Fui informado por ele que a matéria sairia na edição do domingo e fui orientado sobre como o texto deveria ser desenvolvido. E Ramos completa: “Torça para o JJ não saber do reajuste, porque sua primeira reportagem pode ser sua segunda manchete.”

Texto pronto, entrego as laudas para Ramos, ele lê, dá duas gargalhadas e me devolve, dizendo: “texto muito infantil, escreve de novo.” Olhei para ele, sentindo um calor enorme, rasguei as laudas na sua frente e subi para a redação. A forma como me disse e o jeito como reagiu mexeu comigo: uma hora depois um novo texto estava pronto e lá vou eu novamente entregar para ele. “Perfeito!” Foi tudo que ele disse. No domingo, a minha primeira reportagem foi minha segunda manchete, já que a primeira tinha sido o Mobral.

(Próximo texto: como a informação chegava ao jornal)

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/