Ascensão e queda de Carlos Ramos

Por em 13 de abril de 2017

Conheci Carlos Roberto Ramos no Colegial do Geva, quase no final da década de 1960. Fui reencontrá-lo em fevereiro de 1970 quando me convidou para ser revisor no Jornal da Cidade onde era repórter. Na metade deste ano ele assumiu a redação do jornal. Mas não ficou no cargo muito tempo.

Os acidentes de percurso foram muitos para uma direção que queria ver o jornal crescer rapidamente. Ramos assumiu o jornal com pouco mais de 20 anos. Talvez aí esteja o problema de tropeços ocorrerem. Acredito que faltou maturidade! Certa madrugada, o jornal fechado com o relógio batendo 1 hora, o telefone toca, ele atende. É do Corpo de Bombeiros anunciando um incêndio numa empresa em Itu. Ao invés de liberar a rodagem, Ramos segurou a edição e foi até o local. Retornou por volta das 4 horas.

Até escrever, revelar filme, fazer clichês, o sol já tinha raiado e os entregadores estavam desesperados no pátio do jornal. O desespero foi tanto que Ramos era xingado pelos entregadores e, para enfrentá-los, Ramos sobe na janela da redação e urina em cima dos entregadores. Quem conhece o prédio onde funcionava o Jornal da Cidade nesta época, imagina a cena. Alguns entregadores foram embora. O jornal não chegou às bancas e o prejuízo foi enorme naquele dia, principalmente porque assinante quer ler o jornal cedo…

Numa noite, em fechamento, ele e Machado e o revisor e um repórter trabalhavam na redação. As loucuras de Ramos continuam: nesta noite, ele estava só de cueca trabalhando. Neste instante, o senhor Manuel, porteiro e que fazia um café delicioso para manter todo mundo acordado durante a noite, avisa que o coronel Madureira está entrando para conversar com o Ramos. Ele se desespera e determina que Machado vá encontrar o coronel no corredor, antes de chegar à redação. Machado consegue salvar a situação, mas não por muito tempo. Dias depois Ramos desaparece do jornal. Fica um, dois, três dias sem aparecer.

Machado diz que ele estava doente, mas corre comentário de que ele tinha saído e já trabalhava no Jornal da Tarde, emprego este que não durou dois meses. Numa tarde, no início de novembro de 1972, Ramos me espera na saída do jornal, com seu fusca azul escuro. Reconheço o carro e o motorista. Ele faz sinal para entrar no carro, para conversar. Não sei por que, diante de tudo que sabia dele, acabei entrando. Ele tinha nas mãos algumas edições do Jornal de Domingo, um semanário que era distribuído gratuitamente em Campinas e que ainda montava sua estrutura: faltava um repórter para ajudar a fazer o jornal. A proposta era convincente: dobro do salário, carona garantida todos os dias – ida e volta – cargo de secretário de redação, com nome no experiente e folga toda segunda-feira.

O trabalho, então, era de terça a sexta, madrugada de sábado. Aceitei e embarquei na ideia cuja história do jornal será contada aqui em duas etapas. Ramos era o redator-chefe do jornal, além de contato publicitário, mas não fiquei mais do que quatro meses ali. Entrei na faculdade e, mesmo estudando na mesma cidade em que trabalhava, não podia frequentar as aulas duas vezes por semana – quinta e sexta-feira – por conta do fechamento. Fui ao escritório do dr. Gustavo pedir meu emprego de volta e ele me aceitou. Deixei o Jornal de Domingo sem me despedir de Ramos.

O jornal era bom, estava crescendo, mas a proposta da carona de todos os dias desapareceu. Voltei a rever Ramos onze anos mais tarde. Eu já era editor-chefe do mesmo Jornal de Domingo e ele aparecia lá com a proposta de lançar novos cadernos para melhorar a parte comercial do jornal. João de Melo, o dono no jornal, gostava das loucuras de Ramos! Meu contato com ele era pequeno, já que ele estava envolvido com venda de anúncios e criação de um novo caderno – “Alho e Óleo” – e que circularia uma vez por mês.

O projeto não deu certo: a primeira edição atrasou todo o jornal. Ao invés de fechar na sexta à tarde, o fechamento ocorreu no sábado, na hora do almoço e a distribuição do jornal foi prejudicada, com muitos entregadores não aceitando fazer o trabalho no domingo, já que a distribuição sempre era no sábado à noite.

Lembrei daquela edição do Jornal da Cidade… Deixei o Jornal de Domingo, fui para o Diário do Povo, Diário Popular e voltei para Jundiaí. Em 2006, quando era editor-chefe do Jornal de Jundiaí, vi Ramos pela última vez: estava num bar, num domingo de manhã, sentado numa cadeira na calçada, tomando cerveja. Isso às 10 horas da manhã. Fiquei sabendo que morrera em 2011 ou 2012 quando estava na Assessoria de Imprensa da Prefeitura. Lembrei de Ramos no bar, lembre de Ramos evitando o coronel, lembrei de Ramos muito quando soube de sua morte.

Afinal, bem ou mal fora ele que me levara para a carreira jornalística. (A seguir, Queda de Machado e chegada de Waldemar Gonçalvez).

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/