O Caderno de Esportes do Jornal da Cidade

Por em 3 de maio de 2017

1970 não havia jornal circulando às segundas-feiras. O Estadão tinha um caderno de esportes que desapareceu para dar lugar ao Jornal da Tarde, o primeiro a circular neste dia da semana, mas que não circulava aos domingos. Para montar a equipe para os finais de semana o Jornal da Tarde contratava freelancers que recebiam por dias trabalhados. Ademir Fernandes era efetivo no Jornal da Tarde e também trabalhava no Jornal da Cidade.

E fazia esportes em ambos! Ademir indicava alguns nomes para ajudar no Jornal da Tarde. Numa sexta-feira, ele chegou até minha mesa com uma proposta: criarmos um caderno de esportes para circular nas terças-feiras. Ele garantia o material, mas precisava de meus trabalhos para diagramar as páginas. Ideia aceita, trabalho iniciado: Ademir chegava, logo na manhã de segunda, com a maior parte dos textos prontos. E uma vantagem: trazia fotos de jogos que não eram publicadas no Jornal da Tarde: era só diagramar, encaminhar material para a oficina e elaborar a chamada de capa, com destaque sempre para o campeonato paulista – e muitos jogos do Paulista – e garantir uma boa edição na terça-feira. Ademir, praticamente fazia o caderno inteiro.

Apenas a parte do Campeonato Amador de Jundiaí tinha informações de Lázaro de Moura Leite, que trabalhava na parte de circulação do jornal, era apaixonado por este esporte e, na segunda-feira, logo pela manhã, trazia uma folha de papel com todos os resultados, além de trocar ideia com Ademir sobre o melhor jogo da rodada. A vibração era grande neste dia, pois era o caderno que aumentava a venda de jornais. Só o Jornal da Cidade tinha seu caderno de esportes nas terças-feiras! Outra grande vantagem era quando havia Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1: Lívio Tagliacarne, um italiano que tinha uma oficina de consertos de televisões e apaixonado por fotos artísticas, era o encarregado de ir até Interlagos e garantir as melhores fotos da prova.

Duas semanas antes da corrida, eu fazia o ofício para a direção da prova, pedindo o credenciamento de Lívio e ele, feliz da vida, acompanhava os treinos, trazia as fotos, já ampliadas, e serviam também para que o jornal fizesse, no domingo, a chamada para a corrida e para o Caderno de Esportes de terça-feira. Disse aqui que Lívio era o encarregado de ir até Interlagos, mas na verdade, este era seu sonho, sua vontade. Ele se oferecia, gostava, tinha conhecimentos. E Ademir valorizava sempre suas fotos. O caderno fez muito sucesso nesta década no jornal.

Até mesmo após a saída de Ademir, mas com a chegada de Plínio Vicente, o sucesso era mantido. Até porque, Ademir ainda enviava, na noite de domingo, envelopes que ficavam na portaria do jornal, com fotos para ajudar no caderno.

(A seguir: a história de José Luiz Francisco)

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/