A história de Marrom

Por em 12 de maio de 2017

Conheci José Luiz Francisco no dia em que chegou ao Jornal da Cidade, no final de 1970. Levado pelas mãos de Ordival Seckler Machado, Zé Luiz, chamado assim já no dia que chegou, era do Anhangabaú, frequentava a igreja de Santo Antonio e pertencera a um grupo de jovens carentes, atendidos pelas entidades da paróquia. Zé Luiz, que Ademir Fernandes começou a chamar de Marrom, chegou ao jornal para ser chargista ou caricaturista. Apesar de não ter um humor refinado, Marrom captava ideias e idealizava os traços para publicação. Mas o espaço no jornal para seu trabalho era pequeno e foi então que Walter Obiol, fotógrafo uruguaio e clicherista do jornal, sugeriu que Marrom aprendesse a fazer os clichês pois assim ele poderia voltar para sua terra. Fotógrafos surgiriam outros.

A partir deste dia, então, Marrom começou a aprender a fazer os clichês. Não era difícil o trabalho: de um lado, ele fixava a foto na máquina e do outro a chapa que faria a cópia para ser fixada na página do jornal. Importante, porém, era acertar o tom da foto, da imagem, lembrando que, naquele tempo, os jornais eram preto e branco. Assim, Marrom mudou de função no jornal: seus traços surgiam apenas uma ou outra vez e seu trabalho começou a aparecer mais. Afinal, ele era a única pessoa que sabia fazer os clichês no jornal. Marrom não era de muita conversa: chegava na redação, recolhia as fotos, ligava o equipamento e ali ficava trabalhando, esperando o dia e a noite passar. Sempre saindo de madrugada.

E ia a pé para casa. Claro que não era tão longe, mas de madrugada era sempre um problema, mas Marrom mostrava coragem e tranquilidade para isso. Mas trabalhar em jornal é sempre um complicador para a vida e a saúde de qualquer um. Conheci muitos jornalistas que não tiveram vida longa por conta deste trabalho desgastante. O enfarto era fato comum para reduzir a vida de um jornalista, mas haviam funções dentro da empresa que também acabavam com a saúde das pessoas.

E Marrom, sem querer e sem saber, escolheu este caminho: quando o Jornal da Cidade comprou sua impressora off-set e que teve o então governador do estado, Laudo Natel, presente na inauguração, o clicherista perdeu a função. E Marrom correu o risco de perder o emprego. Mas por conta dos bons serviços prestados, Zé Luiz acabou, mais uma vez, mudando de função: foi ser laboratorista, função, que hoje, também não existe mais! Mas ser laboratorista, pra quem não conhece jornal, parece algo simples: revelar filmes na sala escura. Marrom chegava, recolhia os rolos de filmes feitos no período da manhã e se fechava no quarto escuro para trabalhar, preparar drogas e sofrer com sua saúde. Cheiro forte o tempo todo, afetaram os pulmões de Marrom e isto foi fatal para sua vida.

Trabalhei pouco com ele quando passou a ocupar esta função. Saí do jornal, mudei para Campinas e, certo dia, cruzo com Mércio de Oliveira, que fora foca, repórter policial, fotógrafo e que, no início dos anos de 1980 foi trabalhar em São Paulo. Vi Mércio na rodoviária de Jundiaí, bem em frente ao prédio do Jornal da Cidade. E falando sobre jornal, me contou da partida de Marrom. “As drogas acabaram com ele! Cobrei do dono do jornal a situação ainda no velório do Zé.” Me contou Mércio, lembrando que nem dr. Gustavo se manteve na empresa. “Vendeu a parte dele pro Pedrão. Mudou tudo no jornal”, disse Mércio, já colocando os pés dentro do Cometa que estava prestes a sair.

Segui para a plataforma do Caprioli, lembrando que mais um colega de trabalho fora embora. E imaginei até quando partidas tristes continuariam a acontecer para quem trabalha em jornal… (A seguir: atrasos e erros)

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/