Humor ajuda na saúde e no trabalho do jornalista

Por em 2 de outubro de 2017

Já foi o tempo que jornalista tinha direito a aposentadoria especial, com 25 anos de registro em carteira. Isso foi antes de Fernando Henrique Cardoso ser presidente da República. Mas quando comecei na profissão, e isso já comentei aqui, na década de 1970, a profissão estava apenas na primeira fase de regulamentação.

Trabalhávamos dez, doze, quinze horas por dia, diferente das cinco ou sete que se trabalha hoje, com internet fácil e informação chegando a cada minuto. Apesar disso, ainda hoje muitos profissionais trabalham dez, doze, quinze horas por dia, com horário para entrar e nunca para sair. Quando comecei, o repórter tinha sede de notícia e necessidade de buscar informações.

Foram muitos os jornalistas que tinham problemas cardiológicos e até chegaram a morrer por conta disso. Mas redação de jornal não se vive apenas de trabalho, busca de notícias. E era neste vai e vem constante de repórteres pela redação que o humor tinha obrigação de se fazer presente. Ademir Fernandes era um desses jornalistas que tinha uma piada para cada fato que ocorria na redação.

Rir realmente sempre foi o melhor remédio para problemas cardiológicos de jornalistas ou outros desgastes emocionais. Era comum uma reportagem numa favela, com família carente ou entrevista com alguém doente e pouca chance de recuperação. Lamentávamos ao chegar à redação, mas tínhamos que ter sangue frio para desenvolver o texto e relatar os fatos. Comentei aqui que tínhamos um mural na redação, onde publicávamos fotos engraçadas, cenas vividas por repórteres ou situações dentro da redação. As fotos começaram a diminuir, a partir do momento em que a direção determinou o controle de filmes, pois se gastava muito nisso. Então, houve uma determinação de que, num evento o limite de fotos não poderia passar de dez, o mesmo acontecendo num casamento, como registro social. Certa vez, seria inaugurada uma agência bancária no centro da cidade e o fotógrafo, Paulo Furuta, apresentou ao editor-chefe, Waldemar Gonçalves, apenas um negativo da fachada do banco.

Waldemar reclamou, perguntando: “Mas só tem uma foto?” A resposta foi imediata: “Só uma chefe, prédio não pisca!”, comentou Furuta, deixando a redação. A gargalhada foi geral o que impediu Waldemar de chamar a atenção do fotógrafo. O que mais se fazia na redação, era dar trotes nos mais novos, uma espécie de “batizado” no jornal.

O mais comum era pedir ao novo integrante da redação que buscasse a calandra (cilindro de ferro que fazia parte da impressora, difícil de carregar) na oficina. Assim que o rapaz deixasse a redação, a oficina era avisada. E o rapaz voltava com uma caixa de tipos de título ou linhas de chumbo, retiradas da linotipo. Ou até mesmo barras de ferro. Ele só percebia que fora enganado, na hora do riso geral na redação.

Existiam algumas “vítimas” definidas, pessoas distraídas ou ingênuas. Certa feita, uma delas foi até a rádio Santos Dumont (antigo nome da Rádio Cidade), na rua Barão de Jundiaí, onde hoje é uma das lojas da Casas Bahia. Sua ida à rádio era para que buscasse um quilowatts e ele voltou com um tijolo, embrulhado num jornal. Victor Gonçalves era um negro forte, alto e muito falante, que divulgava uma das gravadoras de discos lá pelos anos da década de 1970 e ele foi escolhido para ser entrevistado por um dos iniciantes na redação, que chamávamos de “foca”. Victor foi apresentado ao repórter como lutador de boxe – e tinha pose e jeito para isso. Uma das perguntas e que acabou marcando a entrevista era que tipo de alimentação ele fazia para manter seu físico e estar preparado para as lutas.

A resposta foi louca, mas anotada com atenção: “Sigo a dieta do cavalo. Como capim, milho e alfafa”. E estas informações faziam parte do texto que o repórter preparava com carinho. Claro que estas reportagens nunca foram publicadas, mas os repórteres foram ganhando experiência e isso ajudava no crescimento profissional de todos. Um dos “focas” ganhou o apelido de Zé Kalandra, por conta das vezes em que buscava alguma coisa na oficina. Outro fato para ser comentado é que todos os originais de artigos, reportagens, anúncios, enfim todo material publicado no jornal tinha seu original em papel, pois naquele tempo não havia computador. Então, todo este material era arquivado por um determinado tempo por conta de eventuais reclamações ou processos.

Estes originais eram enrolados, marcando-se a data e colocados num armário. Alguém ia ao armário, apanhava um desses rolos e jogava sobre um dos repórteres, gritando seu nome. Suficiente para assustar o repórter. O rolo de papel não tinha o objetivo de atingir o mesmo, mas simplesmente assustá-lo. Compenetrado, muitas vezes, em desenvolver um texto, alguém já gritava seu nome, dando-lhe o susto.

Nem sempre o rolo de papel nem era jogado em sua direção, mas o susto era sempre a consequência natural. Brincadeiras, às vezes, chegavam à direção do jornal e dr. Gustavo sempre chamava alguém em sua sala para a bronca. Sabíamos que, se ele coçasse o bigode era porque estava muito bravo e era importante mantermos a calma para reduzir o impacto da bronca. Importante é que tudo valia como aprendizado, mas servia para descarregar tensões vividas no dia a dia da redação.

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/