Fatos que nunca foram publicados no jornal: os bastidores da notícia!

Por em 10 de novembro de 2017

Para quem não conhece ou nunca viu uma redação e nem imagina o que ocorre entre a busca das informações e a publicação da reportagem no jornal, vale lembrar que entre a apuração dos fatos e o texto impresso com a foto vai um longo e difícil caminhar. Mas há fatos que merecem destaque para que o leitor saiba que as dificuldades são incontáveis. Os fatos aqui registrados mostram os fotógrafos como os principais envolvidos, mas são curiosos e merecem destaque. O JC, em 1970, tinha apenas uma máquina fotográfica, uma Yashica e que ficara muito tempo no conserto.

No dia em que ela ficou pronta, dr. Gustavo a entrega para Luiz Carlos de Camargo, apelidado de “Dumbo”, com a orientação de que deveria ter o máximo cuidado com ela. Primeira reportagem, Luiz Carlos sai com repórter para verificar um terreno baldio e era necessário atravessar um pequeno córrego para tirar a melhor foto. Ele se apoia num galho de árvore para ganhar impulso e chegar do outro lado. O galho se quebra e ele e a máquina caem no córrego, ficando o jornal sem a foto e, novamente, sem a máquina. Reportagem num treino do Paulista. Fotógrafo faz sua primeira matéria em Jayme Cintra.

Enquanto o repórter entrevista o presidente do clube, o fotógrafo faz fotos do treino. De repente, o repórter ouve “Sai, sai, sai daí!” O repórter olha para o campo e vê o fotógrafo, na pequena área, esperando a cobrança do escanteio para registrar o lance: treino interrompido! Último dia do ano: corrida de São Silvestre Mirim, com largada na rua do Rosário, esquina com a Barão do Triunfo.

Fotógrafo se posiciona em frente ao cine Marabá, hoje um estacionamento, abaixa-se para tirar a foto da garotada que aguarda o tiro de largada. E a largada ocorre exatamente no instante em que o fotógrafo se abaixa. Os garotos correm e são poucos os que conseguem desviar do fotógrafo que está no meio da rua. Resultado: fotógrafo atropelado pelos corredores mirins. O jornal publica, no dia seguinte as fotos da premiação e o fotógrafo ganha uma semana de folga para se curar das escoriações. Fotos da largada não foram registradas. Jogo do Paulista em São Paulo. Fotógrafo vai cobrir o jogo e retorna com as fotos. Waldemar Gonçalves, editor-chefe, cobra as fotos da briga que a rádio anunciara que tinha ocorrido. Fotógrafo nega que houve briga e não há fotos da mesma. Dois dias depois, a TV Cultura exibe o tape do jogo. Redação atenta ao mesmo para acompanhar os lances.

De repente a briga! Um dos diretores do Paulista era irmão do fotógrafo e as câmeras mostram o fotógrafo do jornal, com sua bolsa à tiracolo, tentando tirar seu irmão do meio da confusão. Justificada a ausência da foto da briga! Paulista vai a Sorocaba, enfrentar o São Bento. Orientação é acompanhar 20 minutos de jogo e retornar para que as fotos fossem publicadas no dia seguinte. Gilmar Polli, que era laboratorista, havia sido promovido a fotógrafo e seguiu todo entusiasmado para fotografar o grande jogo. A equipe retorna por volta das 23 horas, com jogo encerado e editoria de esportes aguarda a melhor foto para publicar na matéria do jogo, enquanto Waldemar Gonçalves espera uma foto para a capa. Gilmar entrega o filme nas mãos do laboratorista, que acabava de ser contratado pelo jornal.

Ele pega o filme das mãos de Gilmar, puxa a ponta do mesmo e entra no laboratório. O ato de “puxar a ponta” significa que “velou o filme”, ou seja, perdeu-se o serviço. Gilmar voa no pescoço do laboratorista, mas é impedido de um gesto pior. O editor de esportes, o motorista e o revisor seguram Gilmar que vai embora para casa, chorando. No dia seguinte, o laboratorista é demitido, mas o jornal deixou de publicar as boas fotos do jogo. Mais uma de esportes: partida de futebol de salão no Bolão. Fotógrafo acompanha os lances com a máquina pronta para o melhor “clic”.

De repente ele percebe a bola vindo em sua direção e tira a máquina da frente de seu rosto para “salvar” o equipamento. Resultado: nariz sangrando e fotógrafo sendo atendido pelo médico presente ao jogo. O primeiro a chegar na redação todos os dias era eu. Minha função era escrever a página de Variedades e diagramar quatro páginas antes do almoço para garantir serviço nas oficinas – linotipia e paginação. Adelino Brandão, professor e escritor, também chegava cedo para preparar o Editorial. Itamar era o motorista do jornal nesta época. Ele chegava, ia à redação e ligava o rádio de pilha que Waldemar Gonçalves levara de sua casa, para acompanhar “A voz do Brasil” e algum noticiário depois do mesmo. Enquanto Itamar ouvia o rádio, Brandão escrevia o Editorial e eu preparava os textos de Variedades. Certa manhã, cansado das músicas do rádio, Brandão se levanta, apanha o rádio que estava ao lado de Itamar e o atira pela janela da redação. O mesmo se espedaça ao se chocar contra o muro.

Brandão não disse uma palavra, eu muito menos e Itamar se levantou e nunca mais apareceu na redação. No final da tarde, Brandão traz um novo rádio para Waldemar. Os funcionários do jornal estavam preocupados com o desaparecimento de guarda-chuvas. Em dias de muita chuva, chegavam a desaparecer, dois, três ou até mais guarda-chuvas que ficavam apertos no caminho da oficina ou fechados no lavabo do banheiro do jornal. Ninguém sabia quem fazia isso. Um meu já tinha sido levado embora. Um belo dia vou à oficina para levar material para o linotipista e, quando retorno encontro no corredor uma certa pessoa com três guarda-chuvas na mão. Um deles era o meu!

Esta pessoa ficou sem rumo quando cobrei dela tantos guarda-chuvas. Ela se desculpou, recolocou os mesmos no lugar e no dia seguinte trouxe de volta outros cinco guarda-chuvas que havia levado embora. Nunca mais se roubou guarda-chuva no jornal.

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/