Política e processos também fazem parte da história

Por em 26 de setembro de 2018

Já disse aqui que trabalhar num jornal político não é nada fácil. Político no sentido de fazer reportagens em benefício do patrão. O problema maior no Brasil é que os jornais sempre buscam apoiar alguém politicamente, quer em busca de recursos financeiros, quer por pura ideologia. Em cidades do interior é mais claro o apoio a quem está no poder, ou seja: o jornal apoia o prefeito! Ou, em outra hipótese, vira inimigo do administrador por conta de um apoiador que quer se eleger. Mas em Campinas, logo que assumi o Diário do Povo, vivi, por pouco tempo, a ação e eleição de Luiz Antonio Fleury Filho, superando Mário Covas e Paulo Maluf. Afinal, assumi a redação na metade de setembro de 1990 e a eleição foi no começo de outubro. Pouco tempo para a direção passar orientações, até porque as pesquisas já davam vitória a Fleury.

Quando Quércia deixou de ser governador, ficou livre para articular o nome de um político para enfrentar Magalhães Teixeira na eleição de 1992 para a Prefeitura de Campinas. Mas faltando pelo menos um ano para a articulação começar, senti que tinha fôlego para sobreviver às pressões. Já disse que Paulo Scolfaro deixara o jornal e em seu lugar assumira Ricardo Sabóia que também era superintendente do Diário Popular.

Apesar de recebermos material da Agência Estado, Sabóia sugeriu que entrasse em contato com Miranda Jordão, diretor de redação do Diário Popular e negociasse com ele material para publicação em Campinas. Iniciamos então uma troca de informações, já que eles tinham uma página chamada Interior e era ali que saía o noticiário de Campinas e polícia seguia para a editoria própria. A troca de informações foi mais importante pra mim do que para o jornal, mas este é um fato para outra história.

Na metade de 1991, Sabóia esteve no Diário do Povo e me chamou para apresentar um jornalista, que conheci apenas por Jorge, e que deveria assumir um espaço dominical no jornal para publicação de material político. Além de uma reportagem, ele teria uma coluna, chamada “A Prensa”. A primeira reportagem me assustou: era o início de uma série chamada “Herança Maldita” e os textos relacionavam fatos a Magalhães Teixeira que fora prefeito de Campinas. Objetivo era afirmar que os problemas de Campinas eram de responsabilidade de Magalhães Teixeira. Além dele, o jornal iniciou uma série de ataques a Silvino Godoy, acionista maior do Correio Popular e de políticos do PT. Nesta época, Jacó Bittar, prefeito da cidade, já tinha deixado o PT e se filiado ao PSB. Bittar era um dos fundadores do Sindicato dos Petroleiros em Campinas e o jornal começou, na coluna, a criticar o deputado federal do PT, Luciano Zica, garantindo que o mesmo fora beneficiado com um posto de gasolina.

As denúncias foram saindo: a série de matérias sobre “herança” e críticas na coluna até que recebo a visita de um oficial de Justiça, me entregando um processo sobre injúria, calúnia e difamação aberto por Magalhães Teixeira contra o jornal. Assustado, liguei para Sabóia que riu do outro lado, afirmando que poderiam vir outros, mas que eu teria o melhor advogado do Brasil. Na semana seguinte, recebo a visita de Geraldo Jabur, renomado advogado paulistano. Jabur era corintiano fanático e tinha uma casa em Itanhaém que ele chamava de “Recanto de um corintiano.” Mas este assunto não é interessante. A visita dele não me deixou aliviado, pois afirmou já no primeiro momento: “arrume testemunhas difíceis de serem encontradas, porque os crimes contra a lei da imprensa caducam em dois anos!” Entendi a mensagem, mas os processos foram acontecendo: até do deputado Luciano Zica. Tanto o petista como o ex-prefeito tiveram contato direto comigo no fórum de Campinas: ali conversávamos e ambos pediam desculpas, afirmando que o problema não era comigo, mas com o jornal. Zica, inclusive, disse que se o processo dele não fosse concluído até minha saída do jornal, ele retiraria o mesmo.

Parecia uma visão profética, pois quando fui demitido, recebi, em casa, uma correspondência dele, mostrando o cancelamento do processo. Convivi durante quase um ano com processos e visitas a Fórum. Mas a situação começou a se complicar no início de 1992: Cláudio Quércia fizera uma promessa à redação quando do dissídio, mas os valores não chegaram corretos nos holerites. Quando isso aconteceu, o sobrinho de Quércia estava em viagem de férias e isso revoltou os jornalistas. E, em assembleia, decidiram entrar em greve. Na mesma hora me lembrei dos problemas da greve de 1987 e senti meu emprego começar a escapar pelas mãos. A greve começou por volta das 19 horas e os jornalistas foram embora, deixando todos os textos e material de telex em minha mesa. Com esta situação, acabei fechando o jornal sozinho, mas no dia seguinte, os jornalistas optaram por voltar a trabalhar, com a promessa de que a situação se resolveria.

Com o retorno de Cláudio Quércia ao trabalho, os holerites foram acertados e a situação se acalmou. Mas no mesmo dia, fui chamado a São Paulo por Sabóia. Ele afirmou que o jornal estava em dificuldades financeiras e que precisaria demitir dez jornalistas. E me entregou alguns nomes que eram dos principais grevistas. Perguntei a ele se ele estava punindo o jornal, demitindo bons profissionais que se revoltaram com uma situação ou se era necessário demitir alguém. Sobre isso, ele nada falou: entregou a lista com a relação dos jornalistas e completou: “Escolha dez nomes, precisamos enxugar a equipe!” Uma semana depois, demiti os jornalistas, reuni a equipe e contei a eles a verdade sobre os fatos e disse que os que ficavam eram pessoas de minha confiança. No mesmo dia, assumi com eles o compromisso de criar um Plano de Cargos e Salários para melhorar o bolso de cada um.

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/