As viagens e a volta para Jundiaí

Por em 17 de outubro de 2018

Viajar de Campinas para São Paulo não era tão cansativo ou desgastante. Afinal, morava a um quarteirão da avenida onde passavam os ônibus da Cometa, com destino a São Paulo. Chegava ao Terminal Tietê, tomava o Metro até a Estação Anhangabaú e subia até o prédio do Diário Popular. O difícil não era a viagem Campinas-São Paulo, mas sim o difícil percurso na Marginal do Rio Tietê.

Trânsito, trânsito e muito trânsito. Em dias de chuva não há necessidade de comentar: o trânsito era ainda maior. Três fatos importantes para a história de nosso País ocorreram neste período: a queda de Fernando Collor, a morte de Ayrton Sena e a conquista do Tetracampeonato mundial pelo Brasil nos Estados Unidos. Foi nestas idas e voltas Campinas-São Paulo-Campinas que resolvi, com mulher e filho, diminuir a distância do trabalho e me dar um “aumento” de salário: voltamos a morar em Jundiaí. Afinal, profissionalmente Campinas não me interessava mais! Distância menor, preço de passagem menor, por isso o “aumento” de salário e mais tempo com a família. Mudança feita, felicidade com a viagem mais rápida entre as cidades, o mesmo drama na Marginal e um problema novo surge: chuvas de verão e estradas cheias de água, retardando a viagem. Por duas noites acabei ficando “esperando a água baixar” no Terminal Tietê.

Numa tarde de muita chuva, veio a notícia pela rádio Jovem Pan, informação esta passada pelo jornalista que atuara em Jundiaí, Milton Leite, dizendo que o rio Tietê transbordara e a Marginal estava intransitável. O jornalista afirmava que, os moradores da região de Jundiaí poderiam chegar a São Paulo tendo o trem como alternativa. Cheguei à estação ferroviária satisfeito com a opção de condução, mas me assustei com os vagões: no início de 1995 os trens de subúrbio estavam abandonados: portas quebradas que não se fechavam, péssima iluminação, excesso de ambulantes pelos vagões, além da visão assustadora de surfistas – jovens que viajavam em pé sobre os vagões, preocupando usuários. Fiscalização era zero!

O valor da tarifa era menor que o ônibus e chegava ao terminal Barra Funda onde tomava o metrô até o Anhangabaú. Apesar de assustado com a viagem de ida, confesso que a volta não foi nada melhor: havia um grupo de estudantes viajando de trem e que descia entre Franco da Rocha e Francisco Morato, mas muitos trabalhadores cheirando a suor e se esfregando, principalmente nas mulheres. No dia seguinte, por segurança, mais uma vez fui de trem. Na estação em Jundiaí, início da linha, a viagem era tranquila, com muitos lugares para sentar. A situação ficava difícil a partir de Francisco Morato – neste tempo não havia baldeação, a linha era direta até São Paulo – porque a maioria dos moradores desta cidade, só usava o trem como condução. A primeira impressão que tive era que correria riscos se começasse a olhar os passageiros. Vi muitas discussões neste sentido entre usuários.

Bêbados, pessoas mal vestidas, cheirando suor e foi, logo no segundo dia que resolvi levar livros para ler durante a viagem. Lia um, dois livros por semana. E via ambulantes gritando, surfistas rindo e subindo nos vagões. E foi neste vai e vem que fui me interessando pela viagem e comecei a escrever sobre o assunto. A primeira ideia era fazer um livro reportagem, mas percebi que poderia avançar mais e pensei em escrever um romance. Um romance policial! Muitas vezes descia na Estação da Luz e seguia a pé até o Anhangabaú.

Tinha tempo, saía cedo de Jundiaí e ficava “matutando” no que escreveria quando chegasse à redação do Diário Popular. Gostava de cruzar as avenidas Ipiranga e São João. Lembrava do Caetano, cantarolava a música, mas não perdia a concentração no livro. A história ia crescendo, virou romance policial e surgiu o personagem central: uma menina que lhe dei o nome de Luzinete. O nome nasceu da estação da Luz e o romance crescia em tamanho e forma. Mas a história parou.

Ocorreram mudanças na redação: Jorge Miranda Jordão, o diretor de redação subiu um andar e deixou de ser o amigo e jornalista. Virou administrador. Em seu lugar chegou Josemar Gimenez, que estava deixando a sucursal do Globo, em São Paulo. Com Josemar mudanças ainda maiores ocorreram na redação.

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/