O erro na manchete e o reforço da equipe

Por em 14 de agosto de 2019

Comentei aqui que o Jornal de Jundiaí havia adquirido um programa de paginação, chamado Hermes, acelerando assim o processo de fechamento e eliminando seres humanos da equipe. O ano de 2003 surgia conturbado, preocupante.

Os paginadores, de seis sobraram dois, e os dois revisores que o jornal tinha, perderam suas vagas. Um deles foi demitido e o segundo – a jornalista Paula Mestrinel – passei para a reportagem. E capa sempre foi um assunto mais difícil, que exige maior concentração e cuidados. Durante a semana, Sandra Marques me ajudava, lendo a página para evitar problemas. E foi neste período que a direção decidiu que deveria ver a capa do jornal. Montada e gerada PDF pelo paginador presente, a capa era enviada, por e-mail para a diretora presidente, Sueli Muzaiel ou para o vice-presidente, seu irmão, Tobias Muzaiel Júnior. O objetivo de ver a capa – pelo menos foi esta impressão que senti – era de que os diretores evitassem surpresas, com chamadas de matérias criticando a administração ou de anunciantes que pudessem ter tido problemas ou, até mesmo, amigos da família.

Montada a capa e enviada a reduzida à direção, esperava-se pela “aprovação” e “liberação” da mesma por parte do diretor que fizesse a análise da mesma. Confesso que tive problemas, principalmente nos plantões sobre isso. Era comum enviar a reduzida a um diretor e este informar que estava entrando no teatro e que retornaria em duas horas para ver a página. Esperar duas horas era um verdadeiro castigo, por isso a opção era recorrer ao outro diretor. Por sorte, algumas vezes era o outro quem liberava a mesma.

Esta situação me deixava intrigado, pois mostrava falta de confiança em quem comandava a redação. Com as mudanças ocorridas, por conta da saída de alguns editores, os plantões ficaram enfraquecidos e comecei a negociar com a direção a contratação de mais jornalistas. Pedi dois editores e dois repórteres, pelo menos para manter o padrão nos finais de semana. Comentei acima sobre pessoas influentes e que poderiam ter reportagens contrárias a elas sendo publicadas no jornal. Certa feita, tínhamos uma matéria de uma funcionária da Prefeitura e que também era vereadora e que estava de licença médica, mas não das duas funções. A licença era apenas da função de funcionária da Prefeitura, continuando assim exercendo o cargo de vereadora.

Fizemos uma matéria sobre isso, ouvimos a vereadora e o texto estava paginado, quando a dita pessoa envolvida ligou para a diretora-presidente para solicitar a não publicação da mesma. Sueli me ligou para tirar informações da reportagem. Informada, o texto acabou liberado e ela me disse que eu precisava ser Diretor de Redação, para resolver todas as questões. O assunto ficou martelando na minha cabeça, principalmente depois que me senti forte diante de um erro que cometi na capa do jornal, exatamente na manchete.

Como era o editor quem montava a página, textos colocados, fotos colocadas, tudo encaminhado para o paginador para dar o retoque final e encaminhar para a impressão. Num sábado, defini a manchete que seria “Aposentadoria especial é a saída”. Mas o título estava maior que o espaço determinado. Cortei duas letras para ver se seriam suficientes, mas o envolvimento com a edição do dia, como a liberação de páginas de outros editores, acabei não acertando o título que ficara “Aposentaria especial é a saída”. Foi este o título que ficou na página ao ser encaminhado para o paginador que gerou o PDF e encaminhou para a diretora-presidente. Não percebi o erro e muito menos ela, que liberou a página.

No domingo, a manchete errada estava estampada nas bancas de jornais e sendo entregue aos assinantes. Confesso que, neste dia, fiquei sem coragem para trabalhar no domingo. Mas enfrentei o problema e fui ao trabalho. Ao chegar na redação, estavam trabalhando apenas dois jornalistas naquele horário. Um deles era Fábio Pescarini que editava esportes neste plantão. O outro sorriu quando me viu entrando. Pescarini se levantou de onde estava, passou pela minha mesa, deu um tapinha na minhas costas e simplesmente disse: “força chefe, acontece!” Passaram-se muitos anos deste fato, mas o apoio recebido me permitiu terminar o expediente e esperar pela segunda-feira.

No domingo, foi o vice-presidente quem liberou a capa. Quando liguei para informar que a mesma tinha sido encaminhada ao e-mail dele, ouvi a frase: “É você que está aí?” Respondi que sim e esperei, como já disse, o dia seguinte. Ao chegar na redação, o responsável pela portaria me informou que a diretora-presidente me aguardava em sua sala. Senti que a hora da demissão chegara. Ao entrar na sala, ela simplesmente disse “Boa tarde!” e completou: “Pode contratar um repórter e um editor que pediu.”

Agradeci e saí da sala. Fui ao Recursos Humanos para passar a informação e a responsável me disse simplesmente: “Você está fortalecido. É preciso um erro para mostrar que precisamos de mais seres humanos do que máquinas trabalhando!” São frases como esta e como a de Pescarini que me deram forças para continuarem a caminhada. Já na redação, requisitei os currículos que chegavam sempre, mesmo sem anúncios de abertura de vagas para checar nomes. Depois de algumas análises, acabei contratando Thiago Godinho, repórter que tinha passado pela então TVE e Solange Poli, que também fora da TVE, mas passara pela Gazeta Mercantil e que seria, então, a editora de Economia do jornal.

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/