A arte de montar presépios

Por em 10 de dezembro de 2012

Antes do Natal no meu tempo de adolescência, era assim: eu e Fernando, meu vizinho amigo, saíamos no início da noite, aproveitando a abertura do comércio, para ver presépios na cidade. O objetivo era ver o que havia mudado de um ano para outro ou analisar a criatividade de cada um dos “montadores”.

Seguia com Fernando, pois ele acompanhava a montagem do presépio de seu pai, Antonio, com monjolo, moinho e muita água percorrendo seu espaço. As luzes piscando, na década de 1960, estavam muito à frente dos tempos de hoje, graças à criatividade de seu Antonio. O roteiro começava pela igreja de Vila Arens, seguíamos para a Cica, depois a igreja Nossa Senhora do Desterro que ainda não tinha denominação de Catedral, descíamos o “escadão” para nos surpreendermos – sempre – com o presépio da Argos.

Montado na praça logo na entrada da fábrica, entravamos correndo, atraídos como ímã pelo tamanho das imagens. Por ser o último lugar a ser visitado, era na Argos que começávamos a comparar os presépios. “O da Vila Arens tinha mais água no ano passado. Na Cica, este ano, esqueceram a iluminação. A casinha do menino Jesus, no centro estava muito escura, mas aqui na Argos… veja a água caindo do monjolo… Veja aquele Pastor, não tinha aquela imagem no ano passado!!!”.

“É verdade”, concordava o outro. Encerradas as visitas, voltávamos para casa fazendo os últimos comentários. Quando Fernando me perguntava quando meu presépio ia ter um monjolo, eu dizia que o espaço era pequeno, as imagens também, mas com o aparecimento do papel pedra eu procurava criar mais algumas novidades, sempre com orientação de minha mãe. Mas o presépio que eu mais gostava de ver era do pai do Fernando.

Único problema é que esta visita não fazia parte do roteiro descrito acima: seu Antonio liberava o presépio para visitação, apenas no dia de Natal. E foi num dia depois de Reis, quando eu já desmontava meu presépio, que seu Antonio bateu palmas no portão. Foi minha mãe que o recebeu, foi com ela que ele entrou, acompanhado de Fernando. E foi das mãos de seu Antonio que ganhei, de presente, um monjolo que ele acabara de retirar de seu presépio. “Já estou fazendo outro para o ano que vem, mas não deixe de colocar este monjolo no seu presépio, vou vir aqui ver no ano que vem”, me alertou seu Antonio.

Não vou comentar que fiquei sem palavras e com os olhos cheios de lágrimas. Fernando sorria olhando minha felicidade, mas a vida nos surpreende de maneiras incríveis: entre aquele Reis e o Natal do ano seguinte, seu Antonio partiu repentinamente, sem deixar bilhetes. E ao montar meu presépio, perto do Natal, não me esqueci do monjolo e chamei Fernando para ver. Agora, as lágrimas saíram dos olhos dele…

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/