O vendedor da revista Ave Maria

Por em 18 de outubro de 2013

A visita acontecia apenas uma vez por ano e a gente sabia que ela seria entre setembro e outubro. E o visitante tinha um objetivo: vender assinaturas da revista “Ave Maria”. Vender não era bem o termo, mas renovar o que minha mãe já fazia há anos! E líamos seu conteúdo porque, no final da década de 1950 e início da de 1960 e igreja era totalmente fechada aos fiéis e as revistas religiosas seriam para contar histórias de santos, milagres acontecidos e fotos que era o que gostávamos de ver.

Mas o que acabava sempre provocando alguma briga entre os filhos de dona Angelina eram as palavras cruzadas e piadas que vinham publicadas na penúltima página da revista. Quando ouvíamos o bater palmas no portão e, pela janela da sala, víamos que era o homem de barbas brancas, batina marrom e um cinto branco com uma pasta preta nas mãos, sabíamos que era o vendedor da assinatura.

Era hora de correr ao portão, beijar a mão do frei e trazê-lo para dentro de casa. A partir daí, a conversa era entre ele e minha mãe. Não participávamos da “negociação”. Mas a gente sabia que dona Angelina pagava a assinatura à vista e em dinheiro, principalmente porque o pagamento de meu pai vinha no bolso da calça e, em casa, era guardado em uma cômoda, na sala, no meio de uma revista “O Cruzeiro” onde meu pai guardava também os documentos, principalmente as certidões de nascimento dos filhos. Outra parte do pagamento ficava no quarto, no criado-mudo. Nunca debaixo do colchão…

Depois que minha mãe definia os valores da assinatura e a contribuição para os freis, ela chamava os filhos à sala. Um a um tomávamos a benção do mesmo que passava a mão sobre nossas cabeças, fazendo uma leve cruz. Em seguida, abria a pasta preta e, como num passe de mágica, tirava de dentro delas, santinhos, medalhinhas, terços, folhetos com orações e pequenas imagens de santos. “Um apenas cada um”, dizia minha mãe. O frei sorria e quem escolhia uma medalhinha, ganhava um santinho.

Mas pequena imagem não tinha como: era uma apenas e para todos. Santinhos escolhidos, medalhinhas separadas, esperávamos a benção do frei que retirava da bolsa uma garrafinha com água benta e, além das figuras dos santos, todos nós éramos abençoados. Bolsa fechada era hora da partida! Acompanhávamos o frei até o portão que, mais uma vez abençoava a todos. Depois da despedida, corríamos para dentro e ver o que cada irmão tinha escolhido e já trocando ideias para o que pedir ao frei na próxima visita. Mesmo sabendo que ela aconteceria somente um ano depois…

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/