“No meu tempo de criança” (III)

Por em 2 de novembro de 2013

De como a pitanga se eterniza na memória de Ester

Não tinha porque ser diferente: rua das Pitangueiras só podia ter este nome por causa da grande quantidade de pés da fruta. Mas antes que a rua fosse cortada por avenida, as crianças que moravam naquela região se divertiam saboreando a fruta. Isso acontecia lá pelo final da década de 1960, início da de 1970.

E a diversão envolvia Ester e seu grupo de amigos e amigas. Para quem não conhece, a rua das Pitangueiras, em Jundiaí, está na região do Vianelo, bem no entorno do Hospital que leva o nome da fruta e que pertence ao grupo Sobam. A brincadeira era simples, mas muito saborosa: Uma das crianças do grupo era escolhida para fazer a parte ruim para ela da brincadeira: enquanto as outras se juntavam debaixo de uma das pitangueiras. Olhos fixos na árvore e boca aberta.

O objetivo do jogo era um só: a criança que não se posicionara debaixo da pitangueira, chacoalhava a mesma e as outras crianças corriam em busca da fruta, mas deveriam pegá-la com a boca! Ganhava a brincadeira, quem conseguisse pegar mais pitangas com a boca. Quem pegasse a quantidade menor da fruta, chacoalhava a árvore na rodada seguinte…

E haja pitangas para serem devoradas pelo bando de crianças felizes!!! Ester nasceu ali, cresceu ali, viveu nesta região uma das melhores fases de sua vida. Haviam dias de se curtir a natureza por parte destas crianças: sentavam na calçada e ficavam vendo os pássaros cantando nos galhos, atraídos pelas frutas. E eram estas crianças e estes mesmos pássaros que muitos dias disputavam as frutas no pé.

Claro que sabemos que as árvores não são eternas, que os pássaros que pousam em seus galhos têm um tempo limitado de vida e que as crianças crescem, mudam, buscam outros ares e o local, por conta do progresso se transforma. E hoje, ao cruzar aquela rua, a mesma rua das brincadeiras de “cata pitanga” que Ester se depara com uma nova realidade: algumas destas árvores foram queimadas, outras arrancadas e outras, incrivelmente envenenadas. E a rua se transformou! Aquelas dezenas de pés de pitanga deixaram de existir.

Somente uma está lá hoje, para fazer Ester se recordar de um passado maravilhoso. E toda vez que passa por ali parece que ainda sente o gosto das pitangas em sua boca. E se Ester pudesse resumir uma cor, um sabor, um aroma de infância, certamente isto tudo seria de pitanga!

(Uma história de Ester Benessutti; Texto: Nelson Manzatto)

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/