Conto de uma noite de Natal

Por em 4 de dezembro de 2013

A mesa estava pronta para a ceia desde as 21 horas. O chefe da cozinha transpirava com o calor e a preocupação de deixar tudo em ordem para a família não ter problemas com as visitas. Para agradecer o ano de trabalho, o empresário resolveu convidar os gerente e seus familiares para passarem a noite de Natal em sua casa, numa ceia que teria frutos do mar, vinho e champanhe franceses. As massas já estavam prontas, peru, leitão e carneiro estavam no forno, apenas para manterem-se aquecidos para as 23 horas, horário em que a refeição deveria ser posta à mesa. O movimento de empregados era grande por toda a casa. A árvore de Natal estava enfeitada e os piscas funcionando normalmente, para dar mais brilho àquela noite.

As visitas deveriam chegar por volta das 22 horas, quando os aperitivos deveriam começar a ser servidos. Empresário e esposa estavam na suíte se preparando para o acontecimento. Depois de um ano de muito trabalho e muito dinheiro, era importante agradecer aos gerentes que tão bem comandaram a empresa. Eram quase 22 horas, quando a mulher percebeu que os dois filhos, um com 19 e outro com 18 anos não estavam em casa e não tinham dado sinal de vida. Os celulares desligados impediam que ela os encontrasse e começava a ficar amargurada ao imaginar que eles não estariam em casa no horário combinado para agradar aos chefes da empresa.

O movimento nas ruas, àquela hora, era de pessoas seguindo para casa de parentes para a ceia ou de outras que se diriam ou voltavam das igrejas. O comércio já fechara as portas, bares e restaurantes e cinema seguiam a mesma linha de raciocínio, simplesmente para permitir que todos passassem a noite com seus familiares. Afinal, era noite de Natal!!!

Na casa, o movimento começou a crescer, campainha tocando, carros estacionando em frente à mansão e o casal anfitrião recepcionando os convidados. Na sala, o uisque já rodava solto com canapés; mulheres preferiam uma champanhe mais doce. Os filhos dos gerentes foram convidados a visitar a sala de jogos onde computadores e televisores com games estavam preparados para serem utilizados. O empresário mostrava-se feliz com a recepção que proporcionava aos homens e mulheres de confiança que o deixaram, aquele ano, muitos dólares mais rico. Sua esposa, porém, insistia em ligar nos celulares dos filhos que os mantinham desligados. Não eram filhos revoltados, não tinham motivo para isso, pois sempre tiveram tudo que quiseram. Poderia, talvez, faltar um pouco de atenção por parte dos pais, mas os garotos sempre demonstraram que entendiam a situação. Tudo bem que, uma semana antes do Natal, ficaram sabendo da ceia com o primeiro escalão da empresa e questionaram se poderiam levar alguns amigos também para compartilharem este momento. Claro que o velho empresário negou, terminantemente, que isso acontecesse. Afinal, o encontro era especial para as pessoas que fizeram a empresa deslanchar naquele ano.

A esposa percebera os olhares tristes dos garotos, mas teve a impressão de que tinham acatado a decisão. Não se falou mais no assunto até o meio-dia daquele 24 de dezembro, quando o pai lembrou os rapazes de que, às 22 horas, os convidados começariam a chegar e era importante que os dois também estivessem em casa. Poderiam trazer as namoradas e seus pais. Apenas! Já que a comida seria oferecida, de forma especial, aos homens fortes da empresa. Os dois rapazes desapareceram por volta das 18 horas, afirmando que iriam à missa de Natal e retornariam antes da ceia ser servida.

Na sala, o movimento das sete famílias convidadas transformava aquele ambiente sempre calmo, numa verdadeira festa. O aparelho de CD, com um volume não muito alto, para não atrapalhar a conversa, tocava melodias suaves. E já se aproximava das 23 horas e os garotos não chegavam. A mulher se desesperava, enquanto o empresário ia e voltava da cozinha para acompanhar o trabalho dos empregados no atendimento às visitas. Seu olhar de satisfação se contrapunha ao amargurado da esposa. Mas ele nem percebera isso…

O casal anfitrião, finalmente, por volta das 23 horas, convidou a todos para se dirigirem à sala de jantar, onde a ceia seria servida. Mais garrafas de champanhe e vinho foram colocadas à mesa. Os pratos quentes deixaram o forno para seguirem para ocuparem seus espaços na mesa. E os convidados começaram a tomar seus lugares. O empresário propôs, então, um brinde a todos. E iniciou seu discurso, com o copo e champanhe francesa à mão. A seu pedido, o aparelho de som foi desligado, para que nada atrapalhasse sua fala. Agradeceu a todos pelo trabalho, sugeriu que levantassem suas taças e brindassem àquela noite especial de tantas conquistas. Foi nesta hora que a porta da sala se abriu. O filho mais novo entrava, pela casa, segurando nos braços uma imagem do menino Jesus. O outro filho, desligou o relógio de energia da casa, deixando tudo na maior escuridão e, com um pequeno holofote nas mãos, iluminava o rapaz que, acompanhado da namorada, adentravam à sala de jantar, como se aquela fosse a Sagrada Família.

O empresário sentiu o sangue ferver no rosto. Sua esposa chorava do outro lado da sala, não sabendo ainda se de decepção ou de alegria por ver aquela cena. Os irmãos cantavam “Noite Feliz”, acompanhado por um coro… formado por todos os funcionários da empresa. Todos, desde o pessoal do escritório até o pessoal da limpeza. O empresário, agora, perdeu a fala. O casal de jovens que transportava a imagem do menino Jesus parou diante da mesa cheia de comida. Para estes jovens, não importava, naquele momento, se a comida iria esfriar ou não. O filho mais novo retirou do meio da mesa duas garrafas de champanhe, abriu espaço entre as travessas de comida e colocou ali a imagem daquele menino que tinha os braços abertos, como querendo abraçar a todos. A letra da música foi substituída apenas por um murmurar de vozes, agora mais suaves, exatamente para que o filho mais velho, que já desligara o holofote e fizera as luzes da casa se acenderem e o pisca-pisca voltar a dar sinais de vida, pudesse transmitir a todos a mensagem que preparara.

O rapaz procurou no bolso a folha de papel onde colocara sua fala, mas percebeu que a tinha esquecido ou perdido em algum lugar. Respirou fundo, olhou nos olhos do pai, chamou seu outro irmão e sua mãe e convidou aquele homem, vermelho de raiva talvez, para vir até ali, se juntar a eles. De mãos dadas, os quatro, pais e filhos, olharam nos olhos de todos os funcionários da empresa que não lotavam apenas aquela sala de jantar, mas toda a casa. O rapaz que perdera o texto sorriu para todos e disse que tinha uma mensagem especial para dar naquele momento. Lembrou que o menino Deus, que nascia naquela noite, não veio ao mundo sozinho. Precisou de uma mãe – Maria – e de um pai – José – para poder transformar em realidade o sonho do Pai Celeste que era reaproximar os homens de Deus. Lembrou que ninguém seria alguém no mundo se não tivesse ajuda de outro. Parabenizou o pai pela idéia de reunir todos os funcionários da empresa naquela noite, pois, se Deus se dera de presente para toda a humanidade, nada mais justo do que aquele homem, que vira sua empresa crescer tanto aquele ano, dar aquela ceia de também como presente de agradecimento a todos. Indistintamente. Lembrou, agora quase soluçando, pois sentira que lágrimas escorregavam pelo rosto de seu pai e que sua mãe passava o lenço nos olhos, que se os gerentes foram felizes na criação dos projetos de crescimento que nada teria sentido se todos os demais funcionários não estivessem ali para executar isso.

O murmúrio dos funcionários se transformou novamente em letra musical e o som forte de “Noite Feliz” tomou conta da casa. Todos os que ainda estavam sentados se levantaram para abraçar os colegas de trabalho, os funcionários até desconhecidos de alguns, os filhos pobres dos outros. O empresário puxou os filhos e a esposa de lado, elogiou a atitude dos garotos, mas lamentou que a comida não daria para todos. Os dois rapazes chamaram o chefe da cozinha que, rapidamente abriu a porta da copa de onde saíram pratos de salgados e refrigerantes que os funcionários trouxeram de suas casas, para partilhar aquela ceia. Mais uma vez o empresário sentiu as lágrimas deslizarem por seu rosto e não se conteve: soluçou abraçando sua família.

E todos os funcionários aplaudiram ao ver a alegria de uma família unida, principalmente quando todos pensam na mesma direção.

(1° lugar no I Concurso Internacional de Contos de uma noite de Natal, promovido em 2005 pelo Grupo Elo, de Santos)

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/