No meu tempo de criança (VI)

Por em 15 de dezembro de 2013

Quando um gibi de Pedrão valia por dois!

Colecionar gibis, na década de 1960 era, para Pedrão que na época era Pedrinho, era “mil vezes melhor do que colecionar figurinhas…”

Na verdade, não era bem colecionar gibis. O importante era a troca e o local onde isso acontecia. Pedrão sabia que valia a pena carregar dezenas de gibis, por quarteirões, sempre a pé, até chegar ao cinema.

O saguão do cinema, uma hora antes do filme, repleto de meninos colecionadores, era o palco ideal para a troca de gibis. O filme era o menos importante. O que valia era a troca de gibis. E Pedrão já tinha lido, relido e até pintado as revistinhas em preto e branco que carregava. Flecha Ligeira, Roy Rogers, O Fantasma, Mandrake, Os sobrinhos do Capitão, Tio Patinhas, Pinduca, Recruta Zero, Popeye, Batman… ufa!

Doado o que era seu e recebido o que não tinha lido. Claro que não havia preços, valores em dinheiro, mas havia fórmulas: um almanaque valia cinco, um extra ou bi valia dois. Ir ao cinema com trinta gibis e voltar com tantos outros diferentes era, realmente, uma aventura e tanto! E aquela troca fazia cosquinha! Claro que fazia…

E entrar no cinema, ver o filme com as novidades debaixo do braço. Vontade de folhear, de ler, de ver, de sentir o novo… E isso só ia acontecer duas horas depois, chegando em casa, afinal as luzes do cinema se apagam, os gibis se amontoam colados no corpo e Pedrão suspira, transpira, nem percebe o que aparece na tela…

Enfim, quanta alegria! Finalmente em casa!!! Estórias novas, personagens desconhecidos, mundos e situações estranhas e alucinantes. A leitura dos magazines ensina Pedrão que existe o bem contra o mal, a justiça contra a injustiça e que heróis não precisam ser espetaculares! E lá vem a noite e as emoções de nosso personagem se misturam com seus heróis, muitos deles apresentados no final da tarde, depois da matinê.

As emoções surgem nos sonhos ao se deitar. E Pedrão sonha com ataques de índios, bala de prata do Zorro, a caixa-forte do Patinhas, a identidade secreta do Fantasma, a mala de detetive do Gilberto, sobrinho do Pateta, o quartel do Sargento Tainha… E tudo como num sonho, contar mais sete dias, ler as novas aventuras, reler as emoções…

E como emoções em crianças são mais fortes. Pedrão, ainda Pedrinho, conta segunda, terça, quarta… e chega o novo final de semana, gibis separados, preparados, o caminho do cinema. De novo, sem viver as emoções da tela, mas na busca de outros gibis. O que importa é a emoção da troca, a sensação do novo, do diferente e o folhear de páginas desenhadas e desejadas.

Como se o próprio Pedrão se transformasse em personagem. Só pra ser gibi uma vez!

(Uma história de Pedro Luiz Oliveira. Texto: Nelson Manzatto)

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/