No meu tempo de criança VII

Por em 2 de janeiro de 2014

O drama da “Mãe da rua” Katia Regina

Claro que Katia Regina foi uma pessoa normal, absolutamente igual às outras de sua época de criança. Sua arte era a mesma das outras: tocar campainha das casas e sair correndo. E fazia isso do caminho de sua casa, na rua Emile Pilon, na Vila Arens, subindo e descendo a avenida Fernando Arens até chegar na escola Paulo Mendes Silva, já na Vila Progresso.E Kátia se lembra que estes fatos ocorreram quando tinha dez anos. Mas além do toque sonoro da campainha, Katia adorava brincar de “Mãe da rua”.

Para quem não sabe, esta brincadeira tinha como objetivo atravessar a rua com um pé só, enquanto a “Mãe da rua” tentava desequilibrar a pessoa, fazendo pisar com os dois pés no chão. Objetivo atingido, mudava a “Mãe”… Mas… E em tudo tem um mas na vida… Katia extrapolou na brincadeira…

Como “Mãe da rua”, tentou desequilibrar o garoto Carlos André, filho de um casal amigo dos pais de Katia. A vontade da menina de desequilibrar o garoto era tanta que ficou segurando a camisa branca do uniforme que fazia conjunto com um short azul marinho. Claro que a brincadeira ocorria no pátio da escola durante o intervalo.

Claro também que, ao segurar pela camisa, lá se foi o primeiro botão, depois, claro, o segundo e o terceiro rasgou até a casa do botão…

E a pequena e doce Katia acabou indo parar na diretoria e com castigo: foi obrigada a levar a camisa do garoto para consertar. E aqui vem a doçura de Katia: com medo da mãe, uma espanhola brava, resolveu consertar a roupa por conta própria: apanhou uma caixa de costura da mãe (uma caixa de sapato, onde havia de tudo…) e foi ao banheiro, alegando que era hora de tomar banho. Abriu o chuveiro, como um faz de conta, e ficou de olho na agulha, na linha, na camiseta e tentando imaginar como faria para consertar o botão. E lá se vão cinco, dez, quinze minutos e nada de o banho terminar.

E lá vem a mãe preocupada: “Filha, tá demorando muito, desliga o chuveiro…” E a linha não tinha ainda tido contato com a agulha e muito menos com a camisa com aquele rasgo enorme. E meia hora depois a mãe – não a “Mãe da rua” da brincadeira – mas a espanhola mãe de Katia, chega novamente à porta do banheiro, agora preocupada sem imaginar o que acontecia. “filha abre já a porta, o que está acontecendo?” E mãe sabe tudo, claro que sabe!!! E a porta se abre com Katia chorando e sem tomar banho com toda aquela parafernália em suas mãos.

E conta, chora, lamenta o ocorrido, agora com medo da surra que imaginou levar. Ah esta mãe espanhola! E aí vem a surpresa da menina, a mãe apanha a camisa, agulha, linha, botões e garante o conserto.

Claro que não faltou o sermão da espanhola, claro também que não faltou passar uma boa parte do tempo de castigo, sem a surra que Katia sonhava tomar. E a doçura de Katia se completa no dia seguinte: Orgulhosa chega à escola levando a camiseta consertada. Aquela mesma que estava estropiada no dia anterior.

O sorriso na sala da diretora, a alegria do garoto ao rever seu uniforme completo novamente. E de novo, o intervalo, a brincadeira, a mesma “Mãe da rua”, mas o sorriso nos lábios na hora de segurar ou desequilibrar um coleguinha. Mesmo que isso lhe custasse ser “Mãe da rua” mais uma vez… (História de Katia Regina Perboni. Texto: Nelson Manzatto)

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/