O professor Nelson Cardin

Por em 8 de maio de 2015

“Fala Xará!” Não tinha outro jeito de Nelson Cardin me cumprimentar. E não faltava, claro, aquele sorriso nos lábios. Short, camiseta e tênis eram seus trajes diários a qualquer hora do dia. E isso tinha lógica: Nelson Cardin era professor de tênis no Clube Jundiaiense. E, na década de 1970, a quadra de trabalho de Cardin era na sede central. Hoje, ela não existe mais! Ao lado da quadra, uma sala onde ele ficava entre uma aula e outra e dali até a redação do Jornal da Cidade não lhe tomava muito tempo. E sempre com seu velho Fusca bege…

Além de professor de tênis, Nelson Cardin acabava sendo um assessor de imprensa do Clube, pois era comum vê-lo circulando pela redação do jornal. E não só com resultados de tênis, mas de todos os esportes e muitas vezes trazia consigo o diretor social para divulgar um próximo baile. Interessante era perceber sua rapidez ao resolver os assuntos: não se demorava muito para decidir: a situação acontecia na hora.

E foi nesta ida e vinda constante à redação que acabamos afinando nossa amizade até que ele teve a ideia de criar um jornal para o Clube. Afinal, dizia ele, seus amigos eram eu, Plínio Vicente e Aurélio Rodella, todos jornalistas, todos da redação, todos os dias juntos. E sua conversa com o presidente do Clube – o inesquecível Romão de Souza – acabou definindo a estreia do novo produto.

E não era difícil fazer o jornal: Cardin colhia as informações, eu e Plínio – que deixou o grupo a partir da segunda edição – fazíamos os textos e Aurélio era o fotógrafo do grupo. Mas entre idas e vindas, o grupo acabou se resumindo em Cardin e eu. E ficamos juntos até o início dos anos 80, quando me mudei para Campinas.

Mas no meu retorno a Jundiaí, quinze anos depois o reencontro, como sempre sorrindo e repetindo o “fala Xará!” E neste retorno ele fez questão de me presentear com uma encadernação completa das edições do jornal do Clube que fizemos juntos.

Se existem fatos inesquecíveis numa amizade, não posso deixar de citar algo curioso. Numa manhã quando Cardin passou pela redação, eu estava ao telefone, recebendo a informação de que minha carta de motorista estava pronta. E o “Xará” ouviu a conversa e foi rápido: “te levo lá, vamos”, disse ele. Apanho a carta e retorno ao Fusca bege, mas ele já está sentado no lugar do passageiro. “Senta aí Xará. Você agora pode dirigir!” Rindo e tremendo acabei apanhando o volante e retornando à redação.

Prestativo, cordial, alegre, atencioso. Assim era Nelson Cardin. Não faz muito que partiu. Mas deixou a certeza de que a vida é curta, que precisa ser aproveitada ao máximo e que as amizades se formam em pequenos gestos ou frases. Mesmo que seja um simples “Fala Xará!” que ficou gravada na minha memória, mas que será repetida por ele, com certeza, no nosso encontro na eternidade!

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/