Os donos do mundo

Por em 25 de maio de 2015

Fernando Garcia Vasquez, artista colombiano, foi um dos grandes destaques da SP Arte, feira internacional de artes de São Paulo. Fernando concedeu entrevista para o Jornal de Itupeva, falou sobre vida, arte, preconceitos, liberdade e dos donos do mundo.

“Eu costumo ir para o mercado de grãos no centro de Barranquilla (Colômbia), no domingo, para uma caminhada e para ‘fazer o mercado’, afinal, moro aqui perto. Lá encontro muito artesanato local que me cativa, especialmente o desenho das máscaras e o modo particular como cada artesão abstraí as formas dos objetos representados. Em uma dessas caminhadas conheci Baca, um artesão que ganha a vida vendendo mamão e preparando máscaras para vender no tempo do carnaval. Comecei a colecionar suas máscaras até que, fascinado com os seus desenhos, sugeri que trabalhássemos juntos. Em seguida, se juntou a nós Oscar, um garoto de 13 anos, e mais tarde apareceu Victor, um deslocado de Santander, que também trabalha vendendo máscaras no mercado. Então acabamos trabalhando juntos.”

A frase de Fernando Garcia Vasquez descreve o encontro que resultou no trabalho “Ofrenda”, instalação do artista Colombiano, que, assim como outro castelhano, autor das “Mulheres de Argel”, visualizou nas máscaras a exposição de nós mesmos. Do segundo sabemos que bate recordes em leilões de arte, enquanto do primeiro, sabemos que prospera em uma Colômbia, que não vive apenas dos esteriótipos do narcotráfico e nem das formas avantajadas ilustradas por Botero.

Fernando é formado pela Universidade Nacional de Bogotá, esteve recentemente no Brasil representando pela Galeria “El Museo”, na SP Arte 2015, uma das mais importantes feiras de arte da America Latina, e seu trabalho chamou  atenção pela diversidade e pela “Nudez” das obras clássicas que pintou sem seus personagens.

Em uma troca de palavras que ansiava, de minha parte, ser uma conversa, Fernando apresentou um pouco de si, da arte e daquilo que nos envolve, a vida. “Sou da segunda geração da minha família que vive na cidade. O resto são de origem camponesa, viveram e trabalharam no campo. Essa tradição familiar tratei de continuar realizando a partir de estudos universitários que se mostraram incompatíveis com minha relação com o campo. Eu prefiro ver crescer uma vaca, um pássaro ou uma árvore, que fazer deles comércio. Por esta discordância e pela situação instável que existe nas áreas rurais do meu país e, por desígnios do azar, realizei estudos de Arte na Universidade Nacional de Bogotá. Atualmente, além de sobreviver como professor universitário, eu gasto meu tempo corrigindo e vendo crescer o jardim da minha casa e também a criar imagens que incorporam, sempre que possível, a essência da condição humana, representada pela apropriação de imagens da história da arte.

Colômbia

As perguntas que foram enviadas e respondidas por e-mail, certamente, não estavam nesta ordem, mas estão aqui almejando uma identidade, querendo ser um roteiro. Mas o que é que somos nós mesmos?

Ser colombiano é uma catalogação que se designa a uma pessoa que circunstancialmente nasceu em um território batizado como Colômbia. Carregar este estigma tem o seu lado positivo e seu lado obscuro: Nós ocupamos os honrosos primeiros lugares em deslocamento interno civil, sequestro, minas terrestres, ataques com ácido, impunidade; corrupção e desigualdade social e, às vezes, os primeiros postos em ser o país mais feliz do mundo, em ter a mulher mais bela do mundo; os terceiro na FIFA. O café, as flores e as aves mais exóticas, isso sem falar das paisagens. No final todas resultam em estatísticas desenhadas para beneficiar a poucos e não a todos. Minha Colômbia, a que vivo e respiro todos os dias, contém tons de todos os tipos. São eles que alimentam meu desejo de continuar vivendo para contribuir com o possível para sobreviver dignamente e contribuir com a construção de uma sociedade mais amável.

Meu orgulho é ser quem eu sou

Uma das principais razões que me atraíram para estudar as artes eram as imagens criadas desde tempo imemoriais. Ainda hoje eu gasto muito tempo investigando suas características técnicas e conceitos. Geralmente eu as escolho, me aproprio delas e as manipulo para criar conexões com as quais quero desenvolver. Por exemplo a série “Nude (El Eslabon Perdido)” consistiu em selecionar imagens memoráveis da pintura europeia que se encontrava em livros. Reproduzi com óleo eliminando os personagens. O motivo principal foi o de representar o sequestro e o deslocamento forçado que muitas pessoas sofrem em nossas comunidades. Se eu não pinto o sujeito gritando na pintura de Munch (O Grito) o que é?  Paisagem, silêncio é um momento que induz o espectador a uma armadilha na sua memória. De maneira similar foram elaborados outros projetos reciclando obras da história da arte, porque eu quero que as pessoas que interagem com minha obra se sintam, por algum motivo, familiarizadas com as imagens com as quais elas se relacionam.

A arte e o tempo

Toda obra de arte é, geralmente, um reflexo que documenta didaticamente um período e um lugar determinado de toda nossa história. Algumas obras são mais contundentes que outras e as demais se desvanecem na efervescência do tempo. O Sorriso da Monalisa (Leonardo Da Vinci) ou o sorriso do crânio com diamantes (Damien Hirst) são obras que caíram nas mãos dos poderosos de sua época. Van Gogh não pintava para os comerciantes, mas sua obra foi absorbida por esta dinâmica mercantil que tanto o aborrecia. Nossa cultura de consumo converteu as obras de arte em objetos de luxo, fetichizados e coisificados, onde seu poder geralmente reside em seu valor econômico. Em nossa cultura de vertigem os artistas, geralmente, trabalham rápido, muito rápido e também delegam trabalho e brindam com Champanhe. Este fenômeno tende a desvalorizar o trabalho de execução das obras de arte e a desvalorizar a nossa relação com elas, pois não gozamos do tempo necessário para poder digerí-las saudavelmente. Me parece que somos como aquela lebre morta a quem um artista tenta explicar o que é a arte.

Toda obra de arte cria um vínculo estreito com o ser humano. O ponto é que nem todos têm o mesmo nível de atração para uma determinada obra. Uma pessoa como Hauser (personagem do filme o Enigma de Kaspar Hauser) ou um marciano apresentados em um ambiente com “obras de arte” talvez escolham, como sua favorita, os objetos utilizados para fazer a limpeza do local. Assim, mesmo que você explique para eles que aquilo não é um trabalho artístico, ainda assim, haverá uma ligação silenciosa com os objetos que eles denominaram arte.

Portanto, “O trabalho que realiza um pintor ocasional como uma avó ou outro que dedica sua vida a pintura”, podem ser igualmente valiosas no momento de sua execução. Ambos escolheram um momento de sua vida para criar um objeto, permanente ou efêmero que comunicará uma determinada mensagem. A qualidade deste resultado dependerá de fatores como a paixão investida pela pessoa, as circunstâncias de sua vida que a levaram a tomar a decisão de realizar esta obra e qualidade de execução desta obra. Agora, se nossos dois artistas escondem a obra do público (não a exibem) sua obra permanecerá no anonimato, no qual não nos será permitido saber de sua existência. As obras de arte, boas ou más, que se tem estabelecido em nossa história, geralmente, dependem de circunstâncias além daquelas relacionadas a quem as executou. Geralmente são outras pessoas que “descobrem” e promovem a ‘áurea’ do ‘artista’ que é, assim, mais valioso que os outros. Assim, é como percebemos que desta grande arvore da história, umas ramas deram frutos mais saborosos que outros.

E quanto a nós?

Os seres humanos tendem a ser, por instinto de sobrevivência, preconceituosos: preconceitos profissionais, trabalhistas, éticos, estéticos, sociais, pessoais, enfim. Eu tenho sido uma pessoa que tem preconceitos de todos os tipos e tamanhos. O que tento todos os dias é viver sem eles como podem fazer os animais, as plantas e as crianças. Vícios são necessárias para que possamos viver nossas vidas diárias. Minha mãe, por exemplo, reza todos os dias. Este vício tem lhe permitido viver o dia a dia . O ponto é que há os níveis de dependência, baixos e altos. Nos níveis altos, podemos dizer que a pessoa tem uma baixa estima de si mesma. Minha mãe não pertence a esta categoria. Tampouco Marx (Karl Marx) que, acredito, seu vício era seu hábito de escrever.

A liberdade é um conceito que só se aplica de maneira efetiva aos seres humanos no campo da imaginação. Não podemos realizar atividades como voar ou abrir um buraco para sair do outro lado do planeta em questão de segundos. Nossa existência material, nossa condição essencial, e nossos compromissos econômicos, políticos e sociais impedem que esta liberdade possa ser considerada sequer como uma probabilidade, relegando a nós um mero reflexo.

O paraíso não existe. É um mito que sujeita os incautos a obedecer um Grêmio institucionalizado que se domestica em uma comunidade. A possibilidade de existir uma paz prolongada em uma sociedade como a nossa, que premia o individualismo, é esporádica e cada vez mais escassa devido superlotação desmensurada da humanidade neste planeta e das leis injustas que fazem os donos do mundo.