A Quadrilha no Dragão Mecânica

Por em 19 de junho de 2015

Já disse aqui que o Dragão Mecânica fez parte importante na minha vida. Na minha infância, passava diante dela pelo menos duas vezes por semana ou quando fugia de um colega que classe ao manter seu nome na lousa quando a professora se ausentava da sala de aula. Além de assistir o futebol que era jogado todo domingo, uma vez por ano eu adentrava o outro portão do Dragão para assistir, no mês de junho, a festa junina que se resumia ao casamento caipira e a dança da quadrilha.

Tinha gosto de assistir esta dança, pois a sanfona provocava as pessoas, fazia com que elas se movimentassem e o abre e fecha do instrumento me deixava “babando” ao ver a agilidade daquele senhor de quem sempre tive receio de me aproximar e pedir prá tocar uma musiquinha qualquer e ver o movimento dos dedos do músico. Nos meus tempos de infância, o calendário era motivo de alegria: os dias dos três santos – Antonio, João e Pedro – eram feriados em todo o país.

E a noite anterior a festa acontecia em todos os cantos. Rojões, fogos, balões de todos os tamanhos invadiam os céus. Em 1958, por exemplo, quando o Brasil ganhou o primeiro mundial de futebol, os balões forraram o céu, mas ninguém disse que a Serra do Japi fora afetada.

E era dia de festa na quadra de futebol de salão no interior do prédio do Dragão Mecânica…

A gente sabia que isso ia acontecer, porque Edson Claudio Zeni e sua irmã Maria Angela, que moravam ao lado do Bar do Bizuca, na avenida São Paulo, chegavam na hora do almoço na casa dos avós Angelina e Antonio para se arrumarem para a quadrilha.

E a presença dos dois no evento era fundamental: eles iam à casa dos avós para se vestirem de noivos, pois o casamento caipira abria o caminho para a grande roda, a grande dança. Como morava na casa ao lado dos Torelli, imaginava que alguma coisa estava por acontecer, quando seu Antonio, dona Angelina e dona Ana, a filha portadora de paralisia infantil, se acotovelavam no muro, olhando de um lado e do outro o movimento na avenida São Paulo.

Morávamos a uns 400 metros da quadra, a rua ainda era de terra e o casal de irmão já vinha chegando para a quadrilha. Um silêncio toma conta da casa vizinha, durante pelo menos duas horas.

Imaginava eu, sentado nos degraus do portão, que os “noivos” estivessem se preparando para o casamento. De repente, na esquina da Senador Bento Pereira Bueno, uma carroça aparece e, lentamente, vai parando em frente à casa dos Torelli. Imediatamente me coloco de pé, sem fazer grande barulho, chamo por meus irmãos.

Todos correm para o muro. Seu Alcindo e dona Angelina acompanham da porta da cozinha. Os irmãos Zeni descem a escadaria da casa e sobem na carroça. Maria Angela chega vestida de noiva sobe em primeiro, auxiliada pelo carroceiro. Edson sobe em seguida, com remendos por todo o terno e o carroceiro parte para o Dragão Mecânica. Vontade de subir na carroça nunca me faltou, mas sempre cheguei primeiro ao portão do Dragão que a carroça.

É que o carroceiro ia devagar, chamando atenção das pessoas que se acotovelavam nas janelas ou nos portões prá ver os noivos passando. Já no local do evento, os noivos descem e seguem até a quadra. As crianças que vão participar da quadrilha já estão prontas. Abrem espaço no meio por onde seguem os noivos. O velho Bizeto, ajeita o chapéu de palha na cabeça, liga o microfone e anuncia o início da festança.

A cerimônia se realiza com risos na plateia. Os noivos são declarados casados e começa a quadrilha, com o sanfoneiro dando o tom da dança e o velho Bizeto cantando o “balance… tur… cavalheiro cumprimenta a dama… segue o caminho… a ponte caiu… é mentira…” a gente já sabia todas as falas da quadrilha, às vezes falava antes do Bizeto…

Quando ele anuncia a grande dança para encerrar a festa, espero no meu canto por meus irmãos que “mergulharam” no meio da garotada para dançar. Em casa, vejo a noite chegando, e sinto o cheiro da pipoca preparada por minha mãe, sentindo o gosto da batata doce ainda não pronta e enquanto todos comentam a festa que o bairro inteiro acompanhou no Dragão Mecânica, ainda sinto forte em meu ouvido o som da sanfona e uma vontade de dançar, mas uma coragem que nunca tive nesta vida!

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/