Os “causos” de Aparecida Mariano

Por em 25 de junho de 2015

Conheci Aparecida Mariano de Barros na Academia Jundiaiense de Letras onde entrei em 2002. Claro que demorou um tempo para a gente interagir, mas as conversas giravam em torno das crônicas que eu publicava no Jornal de Jundiaí, no caderno Leitura de Domingo que desapareceu com o tempo. Mas no início ela confundia as pessoas: achava que o autor era outro acadêmico. Até o dia em que nós três conversamos sobre o assunto. E aí, sempre que haviam reuniões ela se dirigia a mim, para comentar as crônicas publicadas desde a última vez que nos vimos.

A conversa de Aparecida girava sempre em torno dos “causos” vividos por ela, principalmente em Piracicaba, onde nasceu. Uma memória prodigiosa desta mulher que mantinha o sorriso nos lábios durante sua narrativa, cheia de interpretação. Mariana era uma das mais ativas acadêmicas: todo ano tinha um livro publicado, com poesias doces, assim como ela era. E neste seu jeito de ser, sempre que nos víamos, me puxava pelo braço e perguntava “quanta doce de formol tomou agora pra ficar assim tão jovem?” E mesmo dizendo que isso era delicadeza dela, trocávamos ideias sobre causos e histórias de nossas infâncias. Eu, nas registradas nas crônicas publicadas no jornal e ela rememorando “causos” que lhe provocavam risos.

Livros, trovas e poemas premiados, transformaram Aparecida numa personagem cheia de alegria nas reuniões acadêmicas. Não havia uma reunião que ela não se pusesse de pé para ler um poema, declamar uma poesia decorada ou contar um “causo” – num linguajar sertanejo – que provocava risos, mas muitos aplausos dos presentes.

Aparecida era assim… Uma pessoa cheia de vontade de viver. Claro que vontade não se perpetua e todos fazem por este mundo uma passagem dentro de um período determinado. E Aparecida se foi não faz muito tempo. Deixou um vazio nas reuniões acadêmicas, mas aquele sorriso ao término de mais um “causo” registrado por ela, ainda é refletido na sala Professor Jahyr Accioly, no Museu Histórico e Cultural de Jundiaí onde ocorrem as reuniões acadêmicas, sempre nos segundos sábados de cada mês.

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/