A jornada de Ademir Fernandes

Por em 24 de agosto de 2015

Conheci Ademir Fernandes na redação do Jornal da Cidade em 1970. Estava começando como revisor e ele já era repórter e editor de esportes, além de viajar todo dia para São Paulo, onde trabalhava no Jornal da Tarde. Alegre, didático, adorava trocadilhos e se divertia com o grande Palmeiras daquele início de década. Jamais deu bronca em alguém por conta do serviço. Fazia isso com humor e elegância que deixava o outro sem jeito de retrucar.

Num tempo que não havia internet, o radinho de pilha era uma de suas fontes de informação. Era por este meio que acompanhava os jogos do Paulista quando a partida era fora de Jundiaí. E naquele tempo, assim como o Palmeiras, o time da cidade não chegava a decepcionar. Mas por conta dos jogos serem à noite e meu trabalho ser à tarde, eram poucas as vezes que a gente se encontrava. Acontecia com mais frequência nas segundas-feiras, quando ele fazia um caderno de esportes, já que não havia edição do jornal nestes dias. E o caderno circulava na terça com grandes destaques para o Paulista, o Amador da cidade e os times que disputavam ou o Paulistão ou o Brasileiro.

Um envelope amarelo era seu companheiro de todas as horas. Chegava à redação com ele, ia para São Paulo e voltava no dia seguinte ao jornal sempre com ele nas mãos. Dentro dele, informações, assuntos ligados à sua área de trabalho. Nos separamos quando o trabalho cresceu em São Paulo, me mudei para Campinas e voltamos a nos ver mais de 20 anos depois, já na segunda metade de 1990. Claro que o envelope era outro, mas a cor era exatamente a mesma. E agora já havia internet, arquivos no computador, mas sua fonte estava ali, naquele envelope.

Já tinha os filhos crescidos e tanto Ellen como Elton seguiram os passos do pai e se tornaram jornalistas. E ele sempre “batalhou” para que os mesmos sempre estivessem bem empregados. E como a vida nos prega peças terríveis, Ademir partiu prematuramente já há 15 anos. Havia uma vontade de trabalhar incrível neste homem que jamais rejeitou uma pauta a mais em sua rotina. Tinha ainda uma vontade grande de ajudar os outros. Era comum vê-lo levar jornalistas de Jundiaí para trabalhar em São Paulo e quando sabia que algum deles estava desempregado, negociava com os colegas de profissão para contratar quem quer que seja. Sua partida deixou uma lacuna grande na imprensa da cidade e na Capital, mas deixou a certeza de que devemos batalhar sempre, até o fim, em busca de nossos objetivos. Ademir era assim: competente, alegre, um bom amigo, destes que, se for preciso tiram a blusa e entregam ao outro para que este não sinta frio.

 

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/