Maior conquista do Paulista não era a manchete do diretor

Por em 25 de outubro de 2019

Terminado o jogo Fluminense e Paulista e time campeão, restava definir o título e esperar a foto que vinha pela Agência Estado. Afinal, a competição era Nacional e era, claro, a manchete do jornal. Estava saindo de uma gripe terrível e só fui trabalhar naquela semana, exatamente porque o time de Jundiaí buscava um título inédito e precisávamos estruturar a edição, com poster do time campeão e, claro, patrocínio do mesmo. Para fechar a capa e definir meu trabalho restavam a foto da avenida 9 de Julho e o texto chamada que o editor de Esportes, Anelso Paixão, aguardava detalhes dos repórteres que estavam fora da redação.

Já disse aqui que o grupo JJ instalou um telão na avenida 9 de Julho onde cerca de cinco mil torcedores acompanharam o jogo e comemoraram a conquista. A capa, com os detalhes que faltavam foi liberada pela presidente do JJ. Foi exatamente neste instante – já passava da meia-noite – quando o telefone de minha mesa tocou. Era o diretor vice-presidente e o diálogo foi mais um menos assim: – Alô – disse eu, imaginando que era minha carona para ir embora. – É Tobias! Você melhorou? – Melhorei sim, graças a Deus, obrigado – respondi educadamente. – Que bom – disse ele. Mas este “Que bom” me soou com ironia e veio a pergunta: – Quantas pessoas estavam na 9 de Julho? – Cinco mil – afirmei. – Quero isso de manchete. – Júnior, o Paulista é campeão do Brasil, esta é a manchete. – Não perguntei qual era a sua manchete, disse qual é a manchete! – Júnior o título dos torcedores está acima da dobra, vai aparecer nas bancas. – Você não entendeu: JJ leva cinco mil para a avenida! Esta é a manchete. – Desculpa Júnior. Amanhã resgatamos a promoção do jornal e damos ela de manchete.

Hoje, o principal é a conquista do time. A conversa terminou. O vice-presidente desligou o telefone e continuei o que estava fazendo: definindo os últimos detalhes da capa. Mas não demorou dez minutos e a porta da redação se abriu. Era Sueli Muzaiel, irmã mais velha de Tobias Muzaiel Júnior, que chegava à redação. Não disse “boa noite”, porque não era preciso. Ela já não era mais “boa”, mesmo com o Paulista campeão. Sueli pediu a reduzida da capa e pegou o celular, deixando a redação. Senti que a conversa era em família e permaneci onde estava. Foram desesperados quinze minutos para ela voltar, entregar a reduzida e dizer: “tudo bem! Está liberado!” Não sei qual foi a conversa entre os dois, mas senti o resultado da mesma a partir do dia seguinte. A matéria que falei que repercutiria no dia seguinte – e já encaminhara a pauta para a chefia de reportagem – foi “derrubada” pela direção. Fiquei sabendo por meio de recado deixado no meu e-mail por Hanaí Costa, a chefe de reportagem.

Neste dia, os diretores não estavam no jornal quando cheguei e a capa foi aprovada e liberada por Tobias Junior com a chefia dos paginadores. Na verdade, o paginador apenas encaminhava a mesma por e-mail e eu esperava a liberação. Mas neste dia foi diferente. Aliás, no dia seguinte também. Como era sexta-feira, imaginei que a partir da segunda-feira seguinte, as coisas voltassem ao normal. Mas continuaram do mesmo jeito! A direção estava “de briga” comigo e os recados vinham sempre da chefia de reportagem ou por meio de Sandra Marques, a jornalista que me substituía quando estava ausente.

Nelson Manzatto

Jornalista profissional desde 1976 e escritor desde 1998 quando publicou seu primeiro livro. Membro da Academia Jundiaiense de Letras desde 2002 onde ocupa a cadeira número 39. Publicou os seguintes livros: “Surfistas ferroviários ou a história de Luzinete“, em 1998; “Contos e Crônicas de Natal”, em 2007 e "Momentos - Crônicas de Nelson Manzatto", lançado em 2012 durante a 22ª Bienal Internacional do Livro. http://blogdonelsonmanzatto.blogspot.com.br/